| Em 18/03/2020

Pesquisa apoiada pela Faperj revela detalhes da produção orgânica de leite no Rio de Janeiro

O crescimento do consumo de alimentos livres de produtos químicos e não-transgênicos e a preocupação da sociedade com a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental vêm contribuindo para o aumento da demanda por alimentos orgânicos, dentre os quais o leite e seus derivados. Do lado do produtor, o valor agregado do produto orgânico é duas ou três vezes superior ao do leite e derivados produzidos de forma convencional, fato que tem motivado a transição de produtores tradicionais para o sistema orgânico de produção.

Com a finalidade de investigar essa tendência, a médica veterinária Joice Fátima Moreira Silva, contemplada no programa “Bolsa Nota 10” da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ, foi a campo para conduzir o trabalho “Bovinocultura Leiteira Orgânica no estado do Rio de Janeiro: Caracterização, Aspectos Sanitários e Qualidade do leite”. Pós-graduanda em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ela defendeu sua dissertação de mestrado em 20 de fevereiro passado.

Segundo Joice, a produção de leite orgânico no Brasil ainda é considerada incipiente, sendo a escassez de informações sobre o setor um dos fatores contribuintes para este cenário. Pela Lei 10.831 de dezembro de 2003 e posterior Instrução Normativa (IN) 46 de 2011, o manejo e o controle sanitário do rebanho para a produção de leite orgânico deve se basear nos princípios do bem estar animal, no manejo de boas práticas nutricionais e de sanidade, e no uso de produtos homeopáticos, fitoterápicos e da acupuntura. “Porém, pouco se conhece sobre as estratégias realmente utilizadas pelos produtores para contornar os problemas sanitários e nem mesmo se elas são efetivas, o que justificou minha pesquisa junto às unidades de produção”, diz a veterinária.

Nas entrevistas, realizadas entre abril e agosto de 2019, e posteriormente confirmadas in loco, foram coletadas informações sobre o produtor e a propriedade; as características da atividade leiteira orgânica na propriedade, da produção e do rebanho; manejo nutricional e aspectos sanitários. Além disso, para a avaliação das condições sanitárias do rebanho e manejo de ordenha, duas amostras de leite foram coletadas em cada propriedade do tanque de resfriamento, uma em época de seca e outra na estação das chuvas. As amostras foram enviadas para a Clínica do Leite (Esalq/USP), vinculada à Rede Brasileira de Qualidade do Leite (RBQL), localizada em Piracicaba (SP), onde foram realizadas as análises da composição do leite (teores de gordura, proteína e lactose), e dos indicadores estabelecidos pelas Instruções Normativas (IN) 76 e 77 de 2018: Contagem de Células Somáticas (CCS células/mL), Contagem Bacteriana Total em Unidades Formadoras de Colônias (UFC/mL) e resíduos de inibidores (antibióticos) no leite.

O rebanho, em sua maioria, mestiço, é manejado de forma semi-intensiva, ou seja, com alimentação à vontade no pasto e suplementação no cocho (Fotos: Arquivo pessoal)

O estudo revelou que as principais motivações dos produtores de leite orgânico são a preservação ambiental, a qualidade e o valor agregado do produto, o bem estar animal, o crescimento do mercado de orgânicos e a interação social justa, uma vez que o processo de Certificação Participativa requer a reunião de produtores em grupos ou núcleos que promovem reuniões periódicas. E o próprio grupo garante a qualidade orgânica de seus produtos, ou seja, todos tomam conta de todos e respondem juntos pela qualidade do produto. No que se refere aos desafios, a grande maioria ainda tem dificuldade de obter insumos orgânicos para a alimentação suplementar (grãos, farelos e volumosos). Outros entraves são a falta de assistência técnica especializada, o mercado ainda restrito, a escassez de mão de obra capacitada, as dificuldades para o controle sanitário do rebanho, o transporte e logística dos produtos, a carência de informações e os esforços individuais para conquistar a credibilidade do cliente final. Apesar das dificuldades, a médica veterinária pôde constatar que os produtores são resilientes e já obtêm sucessos capazes de influenciar outros produtores a fazerem a transição do sistema de produção tradicional para o orgânico.

 

 

Perfil dos produtores

Em suas visitas técnicas a campo, Joice verificou que os produtores entrevistados têm, em média, 60 anos, a maioria (71%) é do gênero masculino e 72% possuem ensino superior completo. O tamanho médio das propriedades é de 149, 5 hectares e a produção média de leite é de 194,3 litros por dia. Para obterem essa produção diária, o número de vacas em lactação no rebanho é de 22 animais, em média, com produção média de 8,7 litros por vaca ordenhada ao dia. Quanto ao tipo de ordenha, 86% das propriedades utilizam a mecanizada. O rebanho, composto em sua maioria por animais mestiços obtidos por cruzamentos variados de Gir leiteiro x Holandês (Girolando), é manejado no regime semi-intensivo, ou seja, com alimentação à vontade em pastagens e suplementação no cocho. A maioria (86% das propriedades) produz de forma orgânica a suplementação de volumoso e concentrado para vacas em lactação durante o ano todo. O produtor que não consegue insumos 100% orgânicos, opta pelo produto produzido de forma tradicional, o que é permitido pela legislação desde que comprovadamente não seja de origem transgênica. Como especificado na legislação, todos os produtores aplicam as vacinas obrigatórias e preventivas, que são consideradas manejo imunológico. A fim de agregar valor ao produto, 70% das propriedades possuem laticínio e vendem sua produção (queijos e iogurtes, principalmente) em feiras orgânicas no Rio de Janeiro. Os 30% demais entregam o leite em cooperativas ou em laticínios de produtos orgânicos.

Controle de doenças do rebanho

Para controlar as doenças do rebanho, 100% das propriedades recorrem à homeopatia e 57%, além da homeopatia, fazem uso de plantas medicinais. Entre os principais problemas sanitários, todos os pecuaristas apontaram os ectoparasitas (carrapatos, moscas e bernes) como os principais agentes que determinam prejuízos econômicos na propriedade. Além da homeopatia, alguns produtores utilizam plantas medicinais e fitoterapia como medida preventiva, na forma de extratos à base de plantas, tais como neem, misturas de folha de fumo com citronela e capim limão, entre outras, para pulverizar o gado e fazer um controle ambiental de carrapatos, moscas e demais insetos. A mastite foi apontada como a doença de segunda maior preocupação por 71% dos produtores, mesmo se adotando a ordenha com o bezerro ao pé (junto da vaca). Nesses casos, para contornar o problema eles também recorrem à homeopatia, adquiridas comercialmente para pronto uso ou preparadas na propriedade, de acordo com a necessidade. Para a prevenção da verminose, que acomete especialmente bezerros, a folha de bananeira picada é oferecida por três dias, e repetida a cada 15 dias. A veterinária explica que devido a maior suscetibilidade das bezerras, alguns produtores optam pelo manejo tradicional até a fase de novilha, quando, com maior resistência, os animais podem fazer a transição e ser incorporados ao sistema de manejo orgânico.

Técnicas no manejo dos dejetos

A pesquisadora também deu atenção especial às técnicas utilizadas no manejo dos dejetos, entre elas a chorumeira, composta de tanque que recebe os resíduos líquidos após a lavagem do curral e equipamentos para posterior reutilização como adubo líquido nos pastos. Outras propriedades optam pela câmera de evapotranspiração para receber o material líquido proveniente da lavagem dos equipamentos, conhecido como água cinza. “Nesse sistema, é construído um tanque impermeável, preenchido com diferentes camadas de substrato cobertas com terra, onde são plantadas espécies vegetais de crescimento rápido e alta demanda por água, como bananeiras”, explica. Nesse sistema fechado não há infiltração no solo nem excedente de água, que é totalmente eliminada por evapotranspiração. Métodos mais tradicionais como composteira e esterqueira ainda são utilizados, sendo que em uma das propriedades o produtor possui um biodigestor, que gera gás para produzir energia, utilizada no laticínio.

Qualidade do leite

Quanto à qualidade do leite coletado, 100% estavam em conformidade no que se refere à composição (percentuais de gordura, proteína e lactose); 67% atendiam aos parâmetros de Contagem de Células Somáticas (CCS), apresentando mensalmente CCS inferior a 500.000 células por mililitro de leite; e 67% também atendiam aos níveis de Contagem Bacteriana Total (CBT). Quanto à análise de presença de antibiótico no leite, todas as amostras foram negativas.

Joice espera que sua pesquisa possa contribuir para um melhor entendimento do cenário do sistema orgânico de produção e da qualidade do leite no Estado do Rio de Janeiro (Foto: Arquivo Pessoal)

Complementando o objeto da pesquisa, Joice realizou um estudo de caso em uma das propriedades orgânicas visitadas: a Fazenda Vale das Palmeiras, localizada em Teresópolis, na Região Serrana. “Esta propriedade utiliza um controle específico de mastite através da análise mensal e individual do leite das vacas para acompanhamento da Contagem de Células Somáticas (CCS), o que permite ao produtor monitorar o status sanitário dos animais quanto à ocorrência de mastite e, consequentemente, promover melhorias na qualidade do leite”, explica a veterinária. Joice espera que os resultados de seus estudos possam contribuir para um melhor entendimento do cenário do sistema orgânico de produção e da qualidade do leite, com visibilidade dos seus pontos fortes e fracos, demandas e oportunidades.

 

Fonte:  FAPERJ (Texto: Paula Guatimosim)

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