| Em 21/07/2021

Pesquisa apoiada pela Fapeg vai utilizar a terra diatomácea no preparo de carrapaticida para o combate à febre maculosa

Projeto do pesquisador e prof. Ricardo Neves Marreto, foi selecionado na 7ª edição do Programa Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS) e vai receber fomento da Fapeg para desenvolver a pesquisa nos próximos dois anos. (Foto: divulgação)

Zoonose de grande relevância para a saúde pública, a febre maculosa brasileira (FMB) é uma doença endêmica de notificação compulsória no Sistema de Informação de Agravos e Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde dentro de 24 horas. O principal vetor da doença é o carrapato Amblyomma sculptum (carrapato-estrela), amplamente distribuído no território brasileiro, que possui como hospedeiros preferenciais as capivaras, antas e equídeos e que podem parasitar humanos.

A FMB é causada pela bactéria Rickettisia rickettsii e consiste em uma infecção aguda que apresenta sinais pouco específicos no início (febre, calafrio, dor de cabeça, dor muscular intensa, mal-estar generalizado, náuseas e vômitos) e evolui para a formação de erupções cutâneas, manchas escuras, gangrena, aumento do baço e do fígado, necrose nas pontas dos dedos e convulsões. Em casos mais graves, manifestações sistêmicas importantes como miocardite, insuficiência respiratória e renal são observadas e estão relacionados à elevada letalidade.

As capivaras e os cavalos assumem grande importância na cadeia epidemiológica da doença, pois são os principais reservatórios dos carrapatos transmissores da febre maculosa. Nas áreas antropizadas, os animais mantidos em pastos sujos, com vegetação alta, ou em matas ciliares, encontram um ambiente propício para a infestação pelo carrapato. Fazer o controle ambiental do vetor constitui a principal forma de intervenção, mas o uso de inseticidas e carrapaticidas no ambiente normalmente causa impacto na fauna de invertebrados e na contaminação fluvial. Produtos naturais têm sido investigados para fazer o controle ambiental de vetores, tendo em vista sua baixa toxicidade para mamíferos e o alto grau de biodegradabilidade.

Na busca por novas formulações de baixo custo, ambientalmente seguras e efetivas contra larvas e ninfas do carrapato-estrela, o pesquisador e professor associado na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Ricardo Neves Marreto, teve um projeto de pesquisa selecionado na 7ª edição do Programa Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS) e vai receber fomento de R$ 115.509,00 para desenvolver a pesquisa nos próximos dois anos. Marreto vai trabalhar em parceria com a professora Stephânia Taveira, que coordena o Laboratório de Nanossistemas e Dispositivos de Liberação de Fármacos (NanoSYS-UFG). O projeto contará com a participação do grupo de pesquisadores do Laboratório de Biologia, Ecologia e Controle de Carrapatos da UFG (Labec – EVZ/IPTESP/UFG), coordenado pelo professor Caio Márcio de Oliveira Monteiro, assim como do Laboratório de Pesquisa em Toxicologia Ambiental (EnvTox – FF/UFG), coordenado pela professora Gisele Augusto Rodrigues.

Terra Diatomácea

O projeto, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), tem como proposta otimizar as propriedades microestruturais da terra diatomácea (TD) e empregá-la como insumo no preparo de carrapaticidas que possam ser aplicados com segurança e efetividade no meio ambiente e com grande potencial para evitar a ocorrência do fenômeno de resistência, relacionado ao uso de carrapaticidas sintéticos. Os produtos serão constituídos por materiais inorgânicos, associados ou não a produtos naturais.

Nas áreas antropizadas, em que a população de capivaras é significativa, a febre maculosa brasileira representa uma ameaça importante à saúde humana, existindo relatos de taxa de letalidade de 85%, explica Marreto. “Nesses locais, o controle ambiental é a principal forma de intervenção. Por isso, é muito importante tornar disponíveis produtos que sejam não apenas efetivos, mas que não causem danos ao meio ambiente. Além disso, o desenvolvimento da plataforma inorgânica que propusemos pode contribuir para o preparo de diferentes produtos usados no combate a outros artrópodes que causam diversos problemas à saúde humana, o que pode estender substancialmente seu impacto sanitário”, ressalta o professor. Como o mecanismo de ação da terra diatomácea é físico, o professor revela que existe grande potencial para o uso destes produtos no controle de outras pragas de interesse para a saúde humana, animal, assim como no agronegócio.

Ricardo Marreto explica que a terra diatomácea é uma coleção de esqueletos fossilizados de algas que atua pela remoção dos lipídeos presentes na cutícula dos insetos, causando desidratação e morte. Segundo ele, a terra diatomácea é um material abundante na natureza, encontrado em regiões de água doce e salgada e que apresenta baixo custo, e que, consequentemente, produtos baseados na terra diatomácea devem ser economicamente acessíveis. Porém, o pesquisador explica que a terra diatomácea apresenta elevada variabilidade e, dessa forma, é necessário processá-la para otimizar a ação do produto. “O controle das propriedades da terra diatomácea pela aplicação de estratégia de formulação e de processo é um dos pontos de maior importância no projeto”, destaca.

Transmissão da doença

(Foto: divulgação)

Para infectar o homem, algum carrapato contaminado pela bactéria causadora da doença precisa picar e permanecer aderido ao corpo humano, se alimentando, por um período mínimo de quatro a seis horas. A transmissão da riquétsia se dá pela picada do carrapato em qualquer uma de suas fases (larva, ninfa ou adulto). Após se alimentar, o carrapato transmite a bactéria por meio de suas glândulas salivares. As picadas das larvas e das ninfas, por serem menos dolorosas, são as que têm a maior probabilidade de transmitir o micro-organismo, pois o ser humano não percebe a picada e permite que ocorra a transmissão. Como a picada do carrapato adulto é dolorida ele pode ser rapidamente percebido e retirado a tempo de não transmitir a doença.

Outra forma de contágio se dá pelo esmagamento do carrapato no momento da retirada, quando libera seu conteúdo gástrico. Ao encontrar um carrapato aderido à pele, o ideal é retirá-lo com o auxílio de uma pinça, torcendo-o levemente para que se desprenda da pele. Não se deve esmagar o carrapato com as unhas, pois isso levará à exposição das riquétsias, que podem penetrar na pele via microlesões.

O período de incubação da febre maculosa pode variar de dois a 14 dias, com média de sete dias até o aparecimento dos sintomas, e está relacionado à quantidade da substância inoculada no momento da infecção. Os profissionais de saúde devem estar atentos e levar em consideração a hipótese diagnóstica da doença, especialmente entre os meses de junho e outubro, quando há um aumento na proliferação do carrapato.

A partir da picada do carrapato infectado, a riquétsia se dissemina pelo organismo via vasos linfáticos e pequenos vasos sanguíneos, atingindo pele, cérebro, pulmões, coração, fígado, baço, pâncreas e trato gastrointestinal. Em todos os tecidos atingidos, a riquétsia invade o endotélio vascular, onde se replica para atingir células da musculatura lisa.

O PPSUS 

O PPSUS é uma parceria da Fapeg com o Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Secretaria de Estado da Saúde (SES). É um programa que tem como proposta fomentar e fortalecer pesquisas científicas, tecnológicas ou de inovação que tenham potencial para oferecer novos serviços e dar respostas a problemas mais urgentes de saúde enfrentados pelos usuários do SUS. As linhas temáticas para as pesquisas foram escolhidas antes do lançamento da Chamada Pública durante as oficinas de prioridades de pesquisa em saúde.

 

Fonte: FAPEG (Por Helenice Ferreira, da Assessoria de Comunicação da Fapeg)

 

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