| Em 13/01/2017

Pesquisa analisa arquitetura e urbanismo em São Luís no século XX

A arquitetura do século XX transformou definitivamente o panorama urbano de São Luís com a inserção dos novos edifícios verticais e com programas trazendo um ar de modernidade à cidade colonial. No entanto, estes modelos da arquitetura moderna e art déco ainda não estão completamente protegidos pelas leis de tombamento e são passiveis de descaracterização.

Com o intuito de ressaltar a importância de conscientizar, conhecer e preservar estes exemplares respeitando as diferentes temporalidades da cidade, os pesquisadores do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), desenvolveram o estudo “Arquitetura e urbanismo em São Luís no século XX”, que avalia planos urbanos de Otacílio Ribeiro Saboia (1936), e Ruy Mesquita (1950), e linguagens arquitetônicas art déco, moderna e brutalista (1935-70).

De acordo com a arquiteta e coordenadora da pesquisa, Grete Soares Pflueger, doutora em urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a intenção é compreender e contextualizar os planos urbanos e as linguagens arquitetônicas na cidade de São Luís no século XX. Além de estabelecer um diálogo entre o urbanismo, a arquitetura e a história econômica do Estado do Maranhão através da análise dos principais planos urbanos e catalogação dos exemplares da arquitetura art déco, moderna e brutalista na capital maranhense construídos entre os anos de 1930-1985.

“Este projeto está relacionado às linhas de ação e critérios da rede de pesquisa internacional ‘Docomomo’, fundada na Holanda em 1988, sediada em Barcelona. É um organismo assessor do World Heritage Center of Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], dedicado a catalogação, pesquisa e preservação da arquitetura e do urbanismo moderno no Brasil e no mundo. Alguns resultados da pesquisa serão apresentados em seminários de história urbana no Rio de Janeiro em setembro, no Chile, em novembro, e no 6º seminário da rede em Teresina em agosto de 2016”, destaca a pesquisadora.

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A necessidade de analisar a arquitetura de São Luis surgiu do conjunto da arquitetura colonial luso-brasileira dos séculos XVIII-XIX, reconhecida e inscrita pela Unesco como patrimônio mundial, que incentivou a pesquisa e catalogação para a proteção deste acervo pelos órgãos federais, estaduais e municipais.

Hoje, na perspectiva do século XXI, conectados à rede de pesquisa sobre a arquitetura moderna, o estudo busca compreender as diferentes temporalidades da capital maranhense com um novo olhar sobre as tendências e estilos arquitetônicos do século XX, valorizando este acervo que se incorporou ao conjunto histórico da arquitetura colonial portuguesa com novos edifícios verticais refletindo as influências dos movimentos art déco, moderno e brutalista.

“Para compreender melhor a arquitetura analisamos os planos urbanos como instrumentos das transformações urbanas e arquitetônicas em São Luís. Eles materializaram o ímpeto de crescimento com as intervenções e renovações urbanas no Centro, e posteriormente com a construção das pontes e novas avenidas para a expansão da cidade”, explica Grete Soares Pflueger.

A pesquisa ressalta a importância destes planos urbanos elaborados pelo urbanista José Otacílio Saboia Ribeiro em 1936, e pelo engenheiro Ruy Mesquita em 1958, pesquisados nesta etapa. Novas etapas da pesquisa vão contemplar o plano do prefeito Haroldo Tavares elaborado pelo arquiteto Wit Olaf Prochinik em 1977, e os relatórios da Unesco elaborados pelo consultor português Viana de Lima em 1973, e pelo francês Michel Parent em 1960. Essas são importantes reflexões sobre a cidade. Os documentos compõem os primórdios do urbanismo maranhense, importante fonte de estudo e pesquisa para compreender os desafios da cidade contemporânea.

Segundo Grete Soares Pflueger, as grandes mudanças decorrentes dos planos foram feitas com demolições de casarios antigos para renovação urbana promovida entre os anos 1930-50, na “Era Vargas”, na gestão de Paulo Ramos, que marcaram definitivamente a renovação da linguagem arquitetônica da cidade.

“O alargamento da Rua do Egito, a construção da Av. Magalhães de Almeida e da Av. Getúlio Vargas transformaram o eixo de crescimento da cidade renovando a linguagem com construção de bangalôs, do cinema Roxy, Correios [em 1933], Palácio do Comércio [Hotel Central de 1943], Edifício Sulacap, prédio do INSS, sede do DNER [em 1950], dos edifícios projetados para instituições BEM [Banco do Estado do Maranhão, em 1963], além das residências modernistas de Cleon Furtado [1968-75], na Av. Beira Mar e Apicum e exemplares da arquitetura brutalista construídos posteriormente, como o prédio da Receita Federal e o Estádio Castelão [em 1980]”, detalha a coordenadora da pesquisa.

arquitetura-saoluis3Grete Soares Pflueger afirma que a arquitetura e o urbanismo do século XX têm sido ainda pouco pesquisados em São Luis. Diante disso, novas iniciativas surgiram para resgatar a importância da arquitetura do século XX através de estudos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UEMA, criado em 1995, com apoio de bolsas da UEMA, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) e dos novos órgãos de pesquisas criados no corpo da municipalidade, que juntos a parceiros estaduais e federais vêm fortalecendo o estímulo para a investigação sobre a arquitetura do século XX evitando que demolições e descaracterizações incidam sobre estes imóveis.

“Os exemplares da arquitetura moderna e brutalista não estão protegidos pelas leis de tombamento e são passíveis de demolição. Somente alguns imóveis inseridos nas áreas de tombamento estadual e federal estão sujeitos à legislação de preservação, alguns são excluídos de tombamento passiveis de demolições e descaracterizações. Nas áreas de expansão urbanas próximas às zonas tombadas, eixos do crescimento urbano no século XX como a Av. Getúlio Vargas e Av. Beira Mar, os imóveis não estão protegidos e vêm sendo demolidos e descaracterizados. Os planos estudados foram marcos referenciais do urbanismo do século XX, na capital maranhense. Resgatar a importância deles é fundamental para compreender a cidade hoje, com seus desafios urbanos”, ressalta a doutora em urbanismo.

A metodologia da pesquisa foi executada em etapas, inicialmente visitando acervos da cidade em busca de dados e imagens dos planos e dos edifícios como o acervo de obras raras da Biblioteca Pública Benedito Leite, Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM), onde estão almanaques, álbuns, postais, jornais e relatórios do século XX, além dos acervos dos órgãos de patrimônio histórico como Departamento de Patrimônio Histórico Artístico e Paisagístico (DPHAP), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Museu de Artes Visuais e Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM).

Posteriormente foi feita uma pesquisa de campo no Centro Histórico de São Luís e nas áreas de expansão urbana para identificação e catalogação dos exemplares da diferentes linguagens arquitetônicas. A pesquisadora diz que o recorte espacial considerou as áreas de renovação urbana da Rua do Egito, Av. Magalhães de Almeida e Av. Getúlio Vargas, considerando as temporalidades urbanas e arquitetônicas, percorrendo cada plano e cada linguagem arquitetônica em bolsas de pesquisas isoladas e conectadas a um grande projeto que foi sendo composto com os resultados da pesquisa em jornais, pesquisas de campo, fotografias e catalogação dos exemplares.

O intuito do estudo é fortalecer o estímulo à pesquisa sobre arquitetura e urbanismo do século XX, conscientizar sobre a importância da preservação deste acervo evitando que demolições e descaracterizações incidam sobre os imóveis. Além de resgatar a importância dos planos urbanos como instrumento fundamental ao planejamento urbano contemporâneo de São Luís.

 

Fonte: Israel De Napoli – NDC FAPEMA

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