| Em 19/02/2026

Parkinson, respiração e coração: a importância dos músculos inspiratórios na doença

Efeitos do treinamento muscular inspiratório, que aumentam a resistência à inspiração e fortalecem os músculos responsáveis por puxar o ar para os pulmões, foram avaliados pelos responsáveis pelo estudo (Foto: Freepik) 

Pesquisadores do Departamento de Fisiologia e Farmacologia, da Universidade Federal Fluminense (UFF), acabam de publicar artigo científico no periódico Autonomic Neuroscience: Basic and Clinical sobre o impacto da respiração no controle de alguns dos sintomas da doença de Parkinson.

A proposta do estudo, coordenado pelo pesquisador Gabriel Dias Rodrigues, foi testar os efeitos do treinamento muscular inspiratório, conhecido pela sigla TMI, que é um tipo de exercício feito com aparelhos simples, que aumentam a resistência à inspiração, fortalecendo os músculos responsáveis por puxar o ar para os pulmões.

“Essa técnica já é usada com sucesso em diversas populações, como atletas, idosos e pessoas com doenças respiratórias. No nosso caso, queríamos saber se esse treinamento poderia melhorar o controle autonômico do coração, ou seja, a forma como o sistema nervoso regula, automaticamente, a frequência cardíaca e a resposta do corpo a mudanças posturais, como levantar-se de uma cadeira ou da cama”, explica.

Rodrigues diz que o sistema nervoso autônomo possui dois ramos principais: o simpático, que acelera o coração em situações de estresse, e o parassimpático ou vagal, que atua como freio, diminuindo a frequência cardíaca em momentos de repouso.

“Em pacientes com Parkinson, esse equilíbrio costuma estar comprometido, especialmente durante situações de estresse postural, como a mudança da posição sentada para a em pé, o que pode levar a tonturas, queda de pressão e até desmaios”, comenta.

O experimento – No estudo, os pesquisadores avaliaram oito pacientes com doença de Parkinson e oito voluntários saudáveis, em idades semelhantes. Eles passaram por cinco semanas de treinamento muscular inspiratório em casa, utilizando aparelhos simples que aumentam a resistência à inspiração.

Os testes foram feitos em duas situações: na posição sentada que foi identificada como repouso; e durante estresse ortostático, que é uma situação em que o corpo é desafiado a manter a pressão arterial estável ao ficar em pé.

“Antes e depois do programa, medimos dois indicadores principais: a pressão inspiratória máxima, que é uma medida da força dos músculos respiratórios; e a variabilidade da frequência cardíaca, uma forma de avaliar a saúde do sistema nervoso autônomo, especialmente a atividade vagal. O interessante foi perceber que apenas cinco semanas de treinamento já são suficientes para gerar benefícios autonômicos relevantes, destacando ainda a forma segura e prática, pois foi realizado no próprio ambiente domiciliar dos pacientes”, destaca Rodrigues.

Resultados promissores – Segundo o pesquisador, ambos os grupos – aqueles com Parkinson e os sem a doença – apresentaram melhora na força muscular inspiratória e na atividade vagal em repouso. Mas o que mais chamou a atenção foi que apenas os pacientes com Parkinson mostraram melhora na resposta do coração ao estresse ortostático após o treinamento.

Gabriel Dias Rodrigues: para o coordenador da pesquisa, o estudo evidenciou que o corpo, mesmo diante da neurodegeneração, ainda pode adaptar-se e responder a estímulos simples, como o ato de respirar melhor (Foto: Arquivo pessoal)

Isso sugere que esse tipo de treinamento pode ajudar o organismo a se adaptar melhor a mudanças posturais, o que pode reduzir sintomas como tonturas, fadiga e até quedas, tão comuns em pessoas com Parkinson. “Acreditamos e nosso estudo mostra que o corpo, mesmo diante da neurodegeneração, ainda pode aprender, adaptar-se e responder a estímulos simples como o ato de respirar melhor. Claro que ainda temos muito a investigar. Nosso estudo foi um piloto, com número reduzido de participantes. Não avaliamos pacientes com Parkinson avançado e com sintomas severos da doença, e que exigiriam acompanhamento mais rigoroso”, diz o pesquisador.

O grupo planeja ampliar a amostra e incluir testes mais detalhados de disfunção autonômica. Mas acredita que o treinamento inspiratório se mostra uma ferramenta promissora, barata e de fácil aplicação no manejo da doença.

Parkinson – Os sintomas do Parkinson vão muito além do tremor nas mãos. O corpo se curva, o passo fica mais lento, a fala enfraquece e a memória recente começa a falhar. Esses sinais, muitas vezes associados ao envelhecimento, podem também ser sintomas da doença, uma condição neurológica progressiva que afeta principalmente pessoas com mais de 60 anos.

Descrita pela primeira vez em 1817, pelo médico britânico James Parkinson, a doença é a segunda condição neurodegenerativa mais comum no mundo, perdendo apenas para o Alzheimer. Estima-se que cerca de 1% das pessoas com mais de 65 anos convivam com o Parkinson. No Brasil, esse número gira em torno de 200 mil pacientes diagnosticados.

Apoiada pela Capes/MEC e pela FAPERJ, a pesquisa mostra que é possível buscar alternativas não farmacológicas, seguras e acessíveis para melhorar a qualidade de vida de quem convive com o Parkinson.

Fonte: FAPERJ (Por: Claudia Jurberg/Ascom Faperj)

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