| Em 11/04/2016

Jovens têm baixa qualidade do sono, observa pesquisadora da UFAL

Luciana de Souza, que é bolsista do Programa de Desenvolvimento Científico Regional do Governo Federal em parceria com o governo do estado de Alagoas, observou que o sono das pessoas é menor do que elas pensam.

Os jovens estão tendo um sono sem qualidade, que não revigora o corpo para o dia seguinte. Essa é a observação do estudo feito em Maceió pela doutora na área de Psicobiologia, Luciane de Souza. Com trabalhos de mestrado e doutorado sobre o sono, desde 2015 ela vem acompanhando um grupo de 138 voluntários em uma pesquisa promovida pelo Laboratório de Eletrofisiologia e Metabolismo Celular, coordenado pela professora Adriana Ximenes, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) da Universidade Federal de Alagoas. Até agora, foram analisados os dados referentes às pessoas com faixa etária entre 20 e 39 anos, que correspondem a 77 pessoas.

O diferencial do trabalho realizado na instituição alagoana é que a avaliação foi feita no ambiente natural de cada um dos participantes, respeitando a rotina e o comportamento. “Para realizar as análises, grande parte dos investigadores estabelece padrões e fixa quantas horas devem dormir, privando-os do que estão acostumados. Queríamos resultados mais compatíveis com a situação diária, por isso, optamos por outro tipo de observação”, explicou a pesquisadora Luciane.

[cml_media_alt id='8317']Luciana de Souza psicobiologia ufal[/cml_media_alt]

Os dados revelaram que 82% dos voluntários jovens superestimam as horas dormidas, ou seja, dizem que dormem uma certa quantidade de horas quando, na verdade, é menos. “Na média geral, eles dormem 45 minutos a menos do que dizem. Além disso, cerca de 50% dormem até seis horas durante a noite, com uma proporção bem pequena, 14%, dormindo entre sete e oito horas”, apontou. De acordo com a Associação Mundial de Medicina do Sono, a duração adequada para a maioria dos adultos jovens é de sete a nove horas de sono, mas a pesquisadora faz a ressalva de que há pessoas que se sentem bem dormindo apenas seis. São os chamados “dormidores curtos”. No entanto, a maioria precisa seguir o que determina a Associação.

Sono fragmentado

Outra situação evidenciada pela pesquisa foram os despertares ao longo da noite. Os entrevistados, ao responderem o questionário proposto, alegavam que não despertavam ou que acordavam muito pouco. A pesquisadora argumentou que é normal não lembrar, principalmente, quando se trata de leves despertares para encontrar uma posição mais confortável. O problema, segundo Souza, é quando eles são muito frequentes, pois representam uma perda na qualidade. “Houve um voluntário que alegou não despertar nenhuma vez. Quando avaliamos os registros, verificamos que ele despertou 40 vezes, o que representa uma fragmentação enorme”, alertou. “É necessário averiguar quais são as causas desse sono fragmentado, que pode ser causado por problemas respiratórios, por exemplo”.

A demora em adormecer também foi identificada entre muitos participantes. Para Luciane Souza, além de outros fatores, essa ocorrência pode ser devido à falta de rotina antes de se deitar, uma vez que, conforme as informações repassadas pelos próprios voluntários, eles não determinavam uma hora certa de ir para a cama. “Há uma variação enorme de horários: em um dia é cedo, em outro, muito tarde. Isso não é adequado. Quando se trata de dormir, não há um botão de ligar e desligar. É necessário um ritual, a pessoa precisa se conhecer e respeitar o seu ritmo”. Estes dois fatores, irregularidade e dificuldade em adormecer, também estiveram associados a mais queixas de ansiedade, depressão, inquietude e deficit na memória operacional, que é indispensável para as atividades do dia a dia. “Aparentemente, a mais afetada foi a memória verbal. Sabe aquele dia que te falta palavra diante de uma situação com a qual você está acostumado, que é rotineira? Então, é bom analisar o descanso da noite anterior”, afirmou.

Diante dos dados obtidos, a pesquisadora relatou que quase não conseguiu identificar entre o grupo de avaliados o “bom dormidor clássico”, aquele que apresenta duração e qualidade do sono adequadas. Para saber se a pessoa dorme bem, é feito um cálculo do tempo enquanto se esteve deitada e o quanto efetivamente dormiu. Para considerar como satisfatório, o resultado deve ser a partir de 85%. “O que fizemos foi elencar como bons dormidores aqueles que tiveram facilidade para adormecer e apresentaram mais regularidade ao longo da noite”, disse. Com esses critérios, do total, 49% foram considerados “bons dormidores”.

Gênero

Na análise por gênero, a pesquisa também mostrou que as mulheres dormem mais do que os homens. “Segundo um estudo recente, elas precisariam de mais tempo de sono para restaurar o humor. O homem consegue ficar bem com um pouco menos de sono”, detalhou. O sexo feminino representou 61% dos voluntários e apresentou mais queixas de sintomas depressivos.

Mas como dormir mais e melhor numa sociedade cada vez mais acelerada, com pessoas sobrecarregadas de tantos compromissos? “Deitar-se mais cedo. Com a rotina, é mesmo complicado acordar tarde. No entanto, é preciso ter consciência de que o corpo precisa de condições adequadas para conseguir repousar”, advertiu Luciane.

Método da pesquisa

O público acompanhado pelo estudo, formado principalmente por servidores e estudantes da Ufal, foi dividido em dois grupos: os adultos jovens, de 20 a 39 anos, e os de meia idade, de 40 a 59. Os dados divulgados acima referem-se ao primeiro grupo. As informações relativas ao segundo ainda estão sendo analisadas. Os participantes não podiam ter diagnóstico de distúrbios do sono e todos foram acompanhados pelo período de 8 a 10 dias.

Em um primeiro momento, eles foram entrevistados sobre as condições de repouso nos últimos 30 dias, ingestão de bebidas alcoólicas, peso, altura, se praticava atividade física, hábitos antes de dormir, grau de escolaridade e o cronotipo (para saber se é mais ativo no período matutino, vespertino ou se é intermediário, que se adapta facilmente a qualquer um dos horários).

Após esse contato, recebiam um aparelho chamado actígrafo (foto), parecido com um relógio de pulso, e que registra o ciclo sono-vigília, ou seja, o período em que se dorme e o que está acordado. O actígrafo deveria ser usado por 24 horas, admitindo-se a retirada apenas para o banho. Os voluntários receberam, ainda, um diário onde deveriam registrar, assim que despertassem, informações sobre a hora em que dormiu e acordou, quantas vezes levantou ao longo da noite, entre outros questionamentos. Na parte seguinte do trabalho, foram submetidos a testes de memória e atenção. Os resultados do estudo foram obtidos a partir da análise e da confrontação de todos esses dados.

Cada voluntário está recebendo um relatório com uma avaliação particular sobre a rotina de repouso que apresentou, com recomendações para melhorar a qualidade do sono. “A nossa intenção é selecionar 30 pessoas para reavaliação, depois de seguirem as orientações repassadas”, adiantou.

A pesquisadora

Luciane de Souza fez sua pós-graduação na Universidade Federal de São Paulo e está na Universidade Federal de Alagoas devido o Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Regional (PDCR), que promove a mobilidade de doutores para outros estados a fim de realizarem pesquisas. Até o final de 2016, ela conclui todas as análises dos dados sobre a pesquisa.

O PDCR é uma parceria do Governo Federal, através do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com o Governo Estadual via Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).

Fonte: Mônica Costa – Nossa Ciência

Leia também

Em 24/08/2026

Profix-CB: FAPs de 16 estados já lançaram chamadas de fixação de doutores; confira os editais

Das 27 Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) que aderiram ao Programa de Apoio à Fixação de Doutores no Brasil – Conhecimento Brasil (Profix-CB), 16 já lançaram chamadas ou editais para o programa. O Profix tem como objetivo incentivar a fixação a doutores em áreas estratégicas de ciência, tecnologia e inovação para estados e […]

Em 24/08/2026

Niède Guidon é homenageada na Academia Brasileira de Ciências

Em 2025, a arqueóloga Niède Guidon faleceu, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato, município no interior do Piauí que se tornou polo de ciência, educação e turismo graças à visão e perseverança da pesquisadora. Sua história é um caso paradigmático de interiorização da ciência, pesquisa cidadã e bioeconomia, conceitos contemporâneos que Niède já desenvolvia há 50 […]

Em 19/08/2026

34ª Edição do Programa Bolsas de Verão do CNPEM seleciona universitários da América Latina e do Caribe

O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) abriu inscrições para a 34ª edição do Programa Bolsas de Verão (PBV), uma iniciativa que, desde 1992, tem capacitado jovens universitários da América Latina e do Caribe. O programa é destinado a estudantes de graduação das ciências exatas, biológicas, da terra, da saúde, além de engenharias […]

Em 19/08/2026

Pesquisadores criam ‘vacina inteligente’ e mais segura contra chikungunya

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores alemães desenvolveram uma estratégia inovadora para a produção de vacinas. Em artigo publicado na revista npj Vaccines, o grupo apresenta a criação de um “imunizante inteligente” a partir de uma versão geneticamente modificada do vírus chikungunya. A grande vantagem dessa tecnologia é que o patógeno só consegue se replicar […]

Em 14/08/2026

Empreendedores do HUB RJ Startup levam seus projetos ao RIW 2026

Empreendedores de todo o estado do Rio de Janeiro, vinculados ao programa HUB RJ Startup, da FAPERJ e da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), participaram, pelo segundo ano consecutivo, do Rio Innovation Week (RIW). Startups selecionadas para a terceira e última fase do edital apresentaram aos visitantes do RIW 2026 o andamento de […]

Em 07/08/2026

MCTI e União Europeia promovem sessão informativa sobre a primeira chamada transnacional conjunta da parceria RAMP

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Delegação da União Europeia no Brasil realizam, no dia 14 de agosto de 2026 (sexta-feira), uma sessão informativa sobre as oportunidades de participação de instituições brasileiras na primeira chamada da Raw Materials Partnership for the Green and Digital Transition (RAMP). O encontro será realizado das […]

Em 17/07/2026

CONFAP e FAPs levam programação especial à 78ª Reunião Anual da SBPC, em Niterói

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) participarão da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada entre os dias 26 de julho e 1º de agosto de 2026, na Universidade Federal Fluminense (UFF), Campus Gragoatá, […]