| Em 27/10/2025

Inovação científica garante segurança e visibilidade ao novo produto da Amazônia: o café de açaí

Projeto contou com suporte da Fapespa e apoia diretamente a cadeia produtiva do açaí, fortalecendo a bioeconomia local e gerando alternativas de renda a partir de um coproduto, antes descartado – (Foto: Divulgação)

O projeto “café de açaí” surgiu a partir da necessidade de produtores associados, que buscavam apoio técnico e científico para o setor de produção do grão de açaí torrado e moído, uma vez que o órgão competente de fiscalização, a Vigilância Sanitária, suspendeu a comercialização do produto pela ausência de regulamentação das fábricas, em regiões do Pará. De tal modo, foi necessária a implementação de parcerias desses produtores com o meio científico-acadêmico objetivando oferecer segurança aos órgãos reguladores, fiscalizadores e demais atores envolvidos no processo da cadeia produtiva dos resíduos do fruto.

A execução dos estudos envolveu parcerias entre universidades, laboratórios credenciados e apoio de órgãos estaduais, a exemplo da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), que concedeu fomento para que fosse possível a realização do projeto “Estudo da qualidade microbiológica, atividade antimicrobiana, efeitos toxicológicos e estabilidade dos grãos de açaí torrado e moído, visando a regulamentação do produto”. O estudo é coordenado pelo professor da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Dr. Diego Aires da Silva, coordenador-geral de Análises Físico-químicas.

Nesse contexto, o projeto buscou estudar o aproveitamento do caroço do açaí, por meio de análises microbiológicas, físico-químicas, toxicológicas e sensoriais, para produção do “café de açaí”, resíduos transformados em grãos torrados e moídos. Para compor os dados das pesquisas, foram realizadas coletas em diferentes localidades do Pará, e o processamento foi feito em escala piloto e ensaios laboratoriais. Assim, garantindo rigor científico e aplicabilidade prática dos resultados obtidos.

“Buscou-se caracterizar o grão torrado em relação à sua composição, estabilidade, inocuidade toxicológica e potencial de aceitação pelo consumidor, além de avaliar sua viabilidade como produto inovador da sociobiodiversidade paraense”, explicou o coordenador Diego Aires, que tem apoio dos professores Carissa Michelle Goltara Bichara, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) – análises microbiológicas, e Nilton Muto, da Universidade Federal do Pará (CVACBA/UFPA) – análises toxicológicas.

Pesquisas – Ao produzir evidências científicas, o estudo contribui para garantir segurança alimentar, fomentar a agregação de valor e apoiar a regulamentação de um produto que já circulava no mercado, mas que carecia de comprovação técnica e normativa. Essa iniciativa objetivou fornecer bases científicas que sustentem a regulamentação técnica do grão de açaí torrado e moído aos produtores e suas associações, assegurando a qualidade e segurança do produto para o consumo humano.

“O financiamento da Fapespa foi decisivo para a realização dessas análises laboratoriais complexas e para a articulação de uma rede multidisciplinar de pesquisadores. Esse apoio viabilizou a produção de dados confiáveis, o fortalecimento da pesquisa aplicada e a aproximação entre academia, setor produtivo e órgãos de controle, assegurando a qualidade científica necessária para respaldar futuras normativas”, declarou o professor. Deste modo, o projeto também tem relevância porque apoia, diretamente, a cadeia produtiva do açaí, fortalecendo a bioeconomia local e gerando alternativas de renda a partir de um coproduto, antes descartado.

Resultados – Os resultados confirmaram a segurança toxicológica do consumo do novo produto, que tem como base o grão torrado e moído do açaí, e comprovaram a ausência de microrganismos patogênicos, a baixa atividade de água (o que garante estabilidade no armazenamento), além de evidenciar um perfil sensorial com potencial de aceitação por parte dos consumidores. Logo, a iniciativa gerou um processo de levantamento de dados de processamento, toxicologia e microbiologia que forneceu aos órgãos competentes, as informações necessárias para melhor armazenamento e processamento desses produtos.

Em 2025, a pesquisa consolidou-se como referência no processo de regulamentação técnica do produto, cuja discussão ocorreu em reuniões sediadas por órgãos como a Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) e a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará). Além disso, o projeto participou de eventos de grande relevância, como a apresentação na 21ª edição do Americas Competitiveness Exchange, sendo difundido como case para novas frentes de trabalho conjunto, uma vez que o estudo serviu para demonstrar a eficácia na solução do problema relacionado ao produto, e onde teve destaque como experiência replicável para outras demandas estratégicas da bioeconomia, gerando inclusive retornos positivos de potenciais investidores internacionais.

(Foto: Divulgação)

Outro desdobramento, em andamento, é a transformação do caroço do açaí em farinha especial para enriquecimento de fibras em produtos alimentícios. Essa nova iniciativa está dentro das ações coordenadas pelo grupo de pesquisa Tecnologia e Inovação para a Indústria de Alimentos – TecInova/Uepa. Deste modo, o “café de açaí” está prestes a retornar ao mercado de forma regulamentada, representando avanço para a bioeconomia e valorização da sociobiodiversidade amazônica.

Para o diretor-presidente da Fapespa, Marcel Botelho, “os produtos da nossa bioeconomia oriundos da grande biodiversidade que existem na Amazônia são de um potencial incrível. Mas, todos eles dependem muito da ciência, da tecnologia e da inovação para agregar valor, gerar segurança, tanto jurídica como a segurança para o consumidor final da sua qualidade, dos seus componentes. É isso que esse projeto fomentado pela Fapespa trouxe para um produto extremamente relevante, derivado do açaí, que tem agora com aporte de ciência, tecnologia e inovação, a segurança necessária para ganhar mercados e cada vez mais impulsionar a bioeconomia paraense”.

Fonte: FAPESPA (Texto: Jeisa Nascimento, estagiária, sob a supervisão da jornalista Manuela Oliveira – Ascom/Fapespa)

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