| Em 11/10/2016

Indicadores de pesquisa em rankings podem encobrir distorções

Mesmo utilizando a pesquisa como principal critério para avaliar as universidades – um parâmetro restrito e, à primeira vista, bastante objetivo, afinal é relativamente simples contabilizar artigos e suas citações -, a produção científica pode ser subestimada nos principais rankings internacionais.

Uma variável que indiretamente acaba sendo deixada de fora pelos rankings é a pesquisa em áreas do conhecimento muito fortes da USP, como a agronomia. Ela não possui tanto destaque simplesmente porque as atividades agrícolas pesquisadas têm mais importância em âmbito regional, e não são tão citadas lá fora. “Ou seja, produzimos conhecimento novo, criando novas técnicas e tecnologias agrícolas, e geramos impacto na sociedade até para quem está lá na ponta, que é o produtor. Mas como a temática não é internacionalmente interessante, as bases de dados não a valorizam”, lamenta Anderson Santana, chefe da Divisão de Gestão de Projetos do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas (SIBi) da USP.

Em seu estudo de mestrado, apresentado no Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP em 2015, Justin Hugo Axel-Berg discute a eficiência das avaliações dos rankings ao argumentar a dificuldade de se elaborar um sistema que avalie áreas do conhecimento de forma justa. “Toda disciplina tem uma taxa de citação diferente e uma produção diferente que é normalizada pelo Information Sciences Institute (ISI)”, explica. “Rankings aglomeram isso em uma pontuação só, sem atentar para a diversidade institucional”, afirma.

Segundo o pesquisador, essas taxas de citação são tratadas em três eixos: o índice immediacy, ou seja, a rapidez com que um artigo passa a ser citado; o índice half life, que analisa o tempo em que um artigo recebe a metade das suas citações; e seu fator de impacto. Tais eixos pressupõem uma distribuição “normal” de citações e, consequentemente, um modelo científico linear. “Isso não descreve muito bem a evolução de muitas ciências sociais e humanidades”, reforça o especialista.

As humanidades são um capítulo à parte, literalmente. Os rankings não são bons indicadores para áreas que historicamente não produzem ciência da forma como eles entendem a ciência, que são os artigos. “As Ciências Humanas são um campo de conhecimento em que a publicação de livros e capítulos de livros tem uma grande importância, mas até agora isso não era valorizado nos rankings”, aponta Anderson Santana. Inclusive, há uma grande quantidade de revistas sendo criadas na área de humanas, muitas na própria USP, entre outros motivos, porque os livros não eram considerados relevantes como produção científica.

O tempo que leva para uma pesquisa de humanas ser feita, e um texto produzido, também é muito maior que para as áreas de exatas e biológicas. “Há pesquisadores de biológicas que produzem um artigo por mês – isso não existe na área de humanas, que envolve mais reflexão. Se um artigo de biológicas demora cinco anos para atingir o ápice em citações, um da área de humanas talvez demore dez, porque tem um tempo maior de maturação”, explica o bibliotecário.

Para Axel-Berg, usar a taxa de citação como os rankings almejam requer uma metalinguagem universal dentro de cada disciplina. “Na minha área, de Relações Internacionais, por exemplo, temos um ‘mainstream‘ geralmente relacionado aos interesses dos Estados Unidos, de segurança etc., e uma alternativa, que reúne muitas áreas de alta relevância ao Hemisfério Sul, mas atrai poucas citações”, avalia.

Leia a reportagem completa: Jornal da USP

 

Via Jornal da Ciência – SBPC

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