| Em 30/07/2025

Fóssil de tartaruga-gigante é encontrado no Acre

Cientistas e equipe de apoio em volta da carapaça da Stupendemys geographicus (foto: Ufac/USP/Unicamp)

Um fóssil raro e surpreendentemente bem preservado de uma tartaruga-gigante que viveu entre 10,8 e 8,5 milhões de anos atrás, durante o Mioceno, foi encontrado na região de Boca dos Patos, em Assis Brasil, no Acre.

A descoberta foi feita por um grupo de pesquisa liderado pelos professores e paleontólogos Carlos D’Apolito Júnior, da Universidade Federal do Acre (Ufac), e Annie Schmaltz Hsiou, da Universidade de São Paulo (USP), coordenadores do projeto “Novas fronteiras no registro fossilífero da Amazônia Sul-ocidental“, financiado pelo edital Expedições Científicas, da Iniciativa Amazônia+10 – programa do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da FAPESP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Acre (Fapac).

“Nós encontramos uma carapaça da maior tartaruga de água doce que já existiu, a Stupendemys geographicus”, conta Hsiou, que estuda a região há quase 20 anos. A carapaça encontrada estava incompleta, a partir da cintura, e tinha grandes dimensões, cerca de 1,70 metro de largura. “A gente estima que esse casco, especificamente, chegaria a quase 3 metros de comprimento. A carapaça está entre as mais bem preservadas já encontradas dessa espécie – um registro espetacular dessa supertartaruga que viveu durante o Mioceno na Amazônia brasileira.”

A diversidade de fósseis da região sul-ocidental amazônica é conhecida há mais de um século e meio e inclui sítios fossilíferos bem consolidados ao longo de barrancos e margens dos principais rios da região, sobretudo no Estado do Acre. “A questão é que em geral encontramos fósseis muito fragmentados”, explica D’Apolito Jr. “É comum acharmos pedaços de carapaça, restos de ossos nunca ou raramente juntos e principalmente de animais menores, que são mais fáceis de se manter articulados. Encontrar animais grandes assim, bem preservados, foi uma surpresa. Agora será possível comparar com registros de outros lugares, como, por exemplo, da Venezuela, que tem um material mais completo dessa espécie. Vamos poder decifrar, finalmente, se é a mesma espécie ou se existia uma diferente.”

O pesquisador compara a descoberta à de outros grandes répteis encontrados na região, como os jacarés da Amazônia. “Não é exatamente igual, claro, mas em 1986 foi descoberto um crânio inteiro do Purussaurus brasiliensis, que é um jacaré gigante, o maior que já existiu. E a partir desse fóssil alguns estudos foram feitos em relação à descrição dele, da estimativa do tamanho, da mordida. Considero um ótimo comparativo, justamente por serem répteis que viveram na mesma região, na mesma época – um período ambiental bem diferente, mais quente, com muito mais água disponível, onde você encontrava lagos e rios gigantescos.”

A época geológica do Mioceno (de 23 milhões a 5 milhões de anos atrás) é conhecida pela rica fauna aquática e terrestre, além de ser o berço de diversas linhagens amazônicas. “Portanto, quanto mais nos aprofundarmos nesse intervalo geológico, mais vamos entender como se formou a biodiversidade na Amazônia e como as mudanças climáticas causaram extinções e transformações na região”, explica Hsiou.

Expedição Boca dos Patos

O trabalho de campo exigiu grande esforço logístico. A equipe, formada por 16 pessoas, sendo dez pesquisadores, cinco barqueiros e uma cozinheira, levou um dia inteiro para subir e descer o rio até chegar ao local da escavação. “O rio seco é a principal dificuldade. A gente ia parando muito para empurrar o barco até achar um pedacinho mais fundo e conseguir navegar”, lembra D’Apolito Jr. A expedição tinha o prazo máximo de seis dias, porque as águas poderiam baixar demais e ficaria ainda mais difícil voltar. “Tivemos uma sorte danada, porque esse fóssil foi encontrado no primeiro dia”, comemora o pesquisador.

A coleta do material durou quatro dias entre escavação, preparação da jaqueta de gesso para preservação do casco, retirada e transporte fluvial até a cidade de Assis Brasil, a cerca de sete horas de barco dali – para depois seguir para a Universidade Federal do Acre, na capital. “Se a gente não tivesse encontrado a tempo, o material fatalmente teria sido perdido. Quando chove e o leito seco do rio alaga, a água vai levando tudo. Não sobraria nada ou muito menos do estado preservado em que encontramos a carapaça”, projeta o pesquisador.

A tartaruga foi transportada em uma base improvisada feita com madeira cortada pelos barqueiros, em geral ribeirinhos e moradores da cidade de Assis. A interação com as comunidades locais, inclusive, é um dos eixos do projeto. “A parceria com eles é fundamental para descobrirmos novos fósseis e novas espécies que nunca antes foram descritas – ou que só os saberes das comunidades tradicionais e originárias tinham conhecimento. Agora a gente pode trazer luz sobre o que realmente aconteceu na proto-Amazônia e também compreender como é a relação desses povos com os fósseis”, afirma Hsiou.

Uma das propostas do trabalho é justamente se vincular a moradores que detêm conhecimento de localidades fossilíferas e têm atuado como fontes, dando a eles e a suas comunidades reconhecimento, além de treinamento, sobre preservação do patrimônio paleontológico regional. “Já temos um certo conhecimento sobre o entendimento dos indígenas do Alto Rio Juruá com os fósseis”, conta a pesquisadora. “Sabemos do respeito que eles têm aos fósseis que encontram na beira dos rios. Há uma certa devoção a esse material. Nossa intenção é aprofundar ainda mais a educação ambiental e a conscientização da importância da preservação, tanto da biodiversidade atual quanto da pretérita. Eles são os guardiões desses locais.”

Durante a expedição à região de Boca dos Patos, também houve o contato com a comunidade local indígena da Aldeia dos Patos, o povo Manchineri. “Fomos pedir licença e mostrar que estávamos por ali. Não trabalhamos na terra indígena em si, mas eles foram lá acompanhar o nosso trabalho de escavação”, diz D’Apolito Jr.

Próximos passos

O fóssil da Stupendemys geographicus foi transportado para o campus-sede da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, onde vai passar por análise científica e depois integrar a coleção de fósseis da Ufac. Uma das diretrizes do edital Expedições Científicas, pelo qual o projeto “Novas fronteiras no registro fossilífero da Amazônia Sul-ocidental” é financiado, é justamente que o material coletado nos trabalhos de campo seja catalogado e tombado em instituições amazônicas, como forma de preservação do patrimônio local.

“A coleção da Ufac tem quase 10 mil fósseis e a grande maioria foi descoberta em locais próximos. Com a ida a lugares mais remotos, a gente aumenta a chance de encontrar materiais que ainda não existem no acervo ou que, embora já conhecidos, estejam mais bem preservados e tragam mais informações taxonômicas. Assim vamos entender melhor como era a Amazônia do passado, como a fauna e a flora evoluíram e se adaptaram às mudanças climáticas”, comenta D’Apolito Jr.

O objetivo do projeto é seguir explorando outros rios no Acre e sul do Amazonas, uma das principais unidades geológicas dentro da Formação Solimões. “Depois dessa supertartaruga, estamos com grande expectativa de achar fósseis muito mais interessantes nesses locais mais inóspitos e pouco explorados”, diz Hsiou.

Ela destaca também a importância da cooperação entre as instituições. “Tenho uma forte parceria com pesquisadores da Ufac. Todos os meus projetos financiados pela FAPESP, desde o meu primeiro Jovem Pesquisador, versam sobre fósseis da Formação Solimões, do sudoeste da Amazônia brasileira, ou da Amazônia Ocidental”, conta. “Já produzimos juntos inúmeros artigos científicos e temos um foco muito grande na formação de recursos humanos, compartilhando pesquisas e materiais e também fazendo intercâmbio entre estudantes da USP e da Ufac”, celebra a pesquisadora.

Fonte: FAPESP (Por: Bruna Bopp | Agência FAPESP)

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