| Em 27/03/2016

Teste criado na USP permite identificar anticorpos contra o vírus Zika

Um teste capaz de diagnosticar em amostras de sangue a presença de anticorpos específicos contra o vírus Zika foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

O grupo, formado por Paolo Zanotto, Luís Carlos de Souza Ferreira e Edison Luiz Durigon, integra a Rede de Pesquisa sobre Zika Vírus em São Paulo (Rede Zika) – força-tarefa criada no fim de 2015 com apoio da FAPESP.

“Esse teste vai ajudar a esclarecer a relação entre a infecção pelo vírus e a microcefalia – indicando quantas dessas mães efetivamente tiveram a doença e se há anticorpos contra o vírus nos bebês microcefálicos. Além disso, vai nos dar uma noção do verdadeiro tamanho da epidemia e de como o vírus está se espalhando pelo país”, avaliou Durigon.

[cml_media_alt id='8077']foto ICB-USP[/cml_media_alt]

O grupo desenvolveu um método para produzir a proteína NS1 do vírus Zika de forma recombinante – usando bactérias da espécieEscherichia coli geneticamente modificadas. Com essa proteína, foi possível adaptar um método imunoenzimático conhecido como ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay), bastante usado em laboratórios do mundo inteiro para diagnóstico de Aids, hepatite e rubéola, por exemplo.

Segundo Durigon, o teste se mostrou capaz de detectar tanto os anticorpos produzidos na fase aguda da infecção (IgM), quanto aqueles que conferem a proteção permanente contra o vírus (IgG). A validação foi feita com amostras de pacientes de São Paulo e também de mulheres do município de Itabaiana (SE), cidade com um dos maiores índices de microcefalia em relação ao tamanho da população no país.

A metodologia permitiu confirmar que a maioria das oito mães de bebês microcefálicos da cidade sergipana é soropositiva para o vírus Zika, assim como seus filhos.

“Esses primeiros testes nos mostraram que o método é específico, não há cruzamento com anticorpos contra dengue ou febre amarela, que era nossa grande dúvida. Agora precisamos ver como o método vai funcionar na vida real. Já estamos em contato com a Fiocruz e com o Instituto Adolfo Lutz para eles testarem em seus pacientes”, contou Durigon.

Segundo o pesquisador, o grupo não pretende patentear a metodologia e nem transformá-la em um kit comercial. A proposta é distribuir gratuitamente a proteína recombinante – inicialmente para todos os centros que integram a Rede Zika e, em breve, para a rede pública de saúde.

“O Instituto Butantan, em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), vai produzir essa proteína NS1 em larga escala. Inicialmente, acredito que ela vai ser usada em uma população de maior risco: as gestantes. Depois que o Butantan conseguir produzir em maior quantidade, será possível distribuir para todos os laboratórios da rede pública do país. Acredito que vai ser rápido”, opinou Durigon.

Segundo o pesquisador, ainda não existe no mercado nacional outra técnica capaz de suprir essa demanda. “Existem alguns métodos importados chegando, alguns kits usam inclusive a mesma proteína que o nosso teste. Mas seria caríssimo para o país comprar”, disse Durigon

Prioridade

Em reunião realizada na sede da FAPESP, no dia 16 de fevereiro, os membros da Rede Zika indicaram o desenvolvimento do teste sorológico como prioridade de pesquisa da rede (Leia mais em: http://agencia.fapesp.br/ 22706/).

“Até agora, nem sequer podíamos ter certeza de que está ocorrendo uma epidemia, pois não havia como mensurar o número de casos nem saber como o vírus está circulando. Por isso a questão do diagnóstico foi colocada como prioritária”, lembrou Durigon.

Estavam disponíveis até então apenas testes moleculares do tipo PCR em tempo real, capazes de diagnosticar o DNA do vírus em secreções corporais nos primeiros cinco dias de infecção.

“Esses casos agudos são apenas a ponta do iceberg. Pacientes que desenvolvem um quadro leve podem levar mais de uma semana para procurar um médico. Nesse momento ele não vai ter mais um PCR positivo, mas vai ter um IgM positivo”, explicou Durigon.

Além de indicar quantas das mães com filhos microcefálicos tiveram a doença, o teste permitirá descobrir quantas gestantes estão atualmente infectadas – possibilitando um acompanhamento minucioso e assistência adequada.

“Os hemocentros também poderão usar o teste para fazer uma triagem e ver quantas pessoas assintomáticas estão doando sangue. E qual a porcentagem de doadores que já foram infectados no passado, como se faz hoje para hepatite e HIV”, acrescentou Durigon.

Fonte: Karina Toledo – Agência FAPESP

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