Há uma grande preocupação com o risco de contrair doenças virais, como a Dengue, Chikungunya e Zika, não só por meio dos mosquitos, mas também pela transfusão de sangue. Isso pode acontecer por não haver testes de triagem que identifiquem esses tipos de vírus no processo de doação de sangue.
A AABB (Advance Transfusion and Cellular Therapies Worldwide), uma organização internacional que representa as instituições em medicina de transfusão, destacou a grande possibilidade de transmissão do Zika vírus pela transfusão de sangue com menção a dois casos identificados no Brasil. Cerca de 80% das pessoas infectadas pelo vírus não apresentam os sintomas da doença. Isto significa que os doadores, aparentemente saudáveis, correm o risco de doar sangue infectado para os pacientes. O risco de transmissão juntamente com a falta de testes de triagem de sangue disponíveis levou a AABB a recomendar políticas de doação de sangue para os seus membros.
Para proteger a segurança do fornecimento de sangue, a ANVISA aprovou, recentemente, um sistema de inativação de patógenos – incluindo o Arbovírus – que impede a infecção do paciente por meio de uma transfusão de sangue. Também será lançada nesta quarta-feira (2) a Frente Parlamentar da Dengue e Incorporação Tecnológica no Enfrentamento das Arboviroses. O evento contará com a presença do ministro da Saúde, Marcelo Castro, além de representantes de órgãos governamentais, laboratórios, institutos de pesquisa, conselhos e entidades municipais.
Dr. Luiz Amorim, diretor técnico do HemoRio, uma empresa brasileira estatal responsável pela produção nacional de plasma e outros produtos derivados do sangue para o Ministério da Saúde, e professor da Universidade Federal Fluminense, fala sobre a tecnologia de inativação de patógenos no contexto da transmissão de diversas doenças virais.
Como funciona a tecnologia de inativação de patógenos?
A técnica está disponível e aprovada para dois tipos de componentes sanguíneos: concentrados de plaquetas e plasma. Todo o processo é efetuado nos Bancos de Sangue.
A primeira etapa da técnica consiste na adição, ao plasma ou ao concentrado de plaquetas, de um medicamento da classe dos psoralenos, o Amotosalem. Este medicamento tem como característica se interpor, se ligar ao material genético de vírus, bactérias, protozoários, leucócitos, enfim, de qualquer contaminante que esteja presente na bolsa de plaquetas ou de plasma.
A seguir, esta bolsa é submetida a uma irradiação por raios ultravioleta A (UV-A). Isto promove uma fixação permanente (“crosslink”) do material genético ao Amotosalem, fazendo com que os patógenos que porventura estejam presentes no sangue percam a capacidade de se replicar, e, portanto, deixem de ser infecciosos.
Ao final do processo, a bolsa é submetida a uma espécie de filtração (na verdade, uma adsorção) para a retirada do Amotosalem.
Ela já é utilizada no Brasil ou fora dele em bancos de sangue? Caso positivo, para quais patógenos?
A técnica é empregada em países da Europa – França, Holanda, Suíça, Bélgica, Espanha, entre outros – já há alguns anos. Na América Latina, o México e o Chile já fazem uso desse método. Foi recentemente aprovada pelo FDA, e alguns hemocentros americanos já implantaram a técnica. Alguns países da Ásia também já adotaram a inativação de patógenos.
No Brasil, o método acabou de ser aprovado pela ANVISA. Ainda não há nenhum serviço de Hemoterapia (banco de sangue) que tenha começado a utilizá-la na sua rotina. O HEMORIO e a Fundação Pró-Sangue/Hemocentro de São Paulo já utilizaram-na, experimentalmente, em trabalhos de pesquisa.
Qual seria diferença (ou vantagem) desta técnica em relação às outras já existentes para triagem de bolsas de sangue?
Hoje há duas técnicas de triagem de bolsas de sangue: a sorologia (ELISA e quimioluminescência) e técnicas moleculares, em que se detecta o genoma viral (técnica que no Brasil ficou conhecida pela sigla NAT, de Nuclear Acid Technology). O uso do NAT é obrigatório, no país, para a detecção do HIV e dos vírus da hepatite B e C.
Por mais eficazes que sejam estes métodos laboratoriais, ainda não se conseguiu eliminar o chamado período janela imunológica, isto é, o lapso de tempo que decorre entre a contaminação de um indivíduo e o aparecimento da positividade do teste diagnóstico, seja este sorológico ou molecular. O NAR reduz a duração da janela – de 22 para 10 dias, por exemplo, no caso do HIV – mas não a suprime.
Assim, uma bolsa de sangue, mesmo testada pelos métodos mais modernos, tem sempre um risco que chamamos de residual, de conter algum vírus, se a doação de sangue tiver sido feita durante o período de janela imunológica.
A inativação de patógenos elimina este período de janela imunológica, ao inativar vírus, bactérias e protozoários eventualmente contidos na bolsa.
Além disto, a técnica de redução de patógenos, ao inativar bactérias, previne aquela que é hoje a mais frequente das complicações infecciosas da transfusão: a transmissão de bactérias. Em alguns países do mundo, como os Estados Unidos, é obrigatória a aplicação de um teste para a detecção de bactérias em alguns tipos de componentes sanguíneos (concentrados de plaquetas). O uso da inativação de patógenos dispensa a realização deste teste.
Todas as bolsas devem ser testadas para zika, ou apenas aquelas destinadas às gestantes?
Para ser usado em doadores de sangue, um teste para o vírus Zika precisa ter o que chamamos de alto throughput, isto é, precisa permitir que todo o sangue seja testado de forma automatizada ou, no mínimo, semi-automatizada, em um tempo curto, de não mais que doze horas. Os grandes bancos de sangue chegam a testar 500, 600 amostras por dia, e os resultados dos testes de triagem têm que ser liberados com rapidez.
Testes moleculares para a detecção do vírus Zika com estas características ainda não estão disponíveis, nem no Brasil nem em nenhum outro lugar do mundo, embora muitas instituições, dentre as quais a Fiocruz, estejam trabalhando para desenvolvê-lo.
Com os testes de que dispomos hoje poderíamos testar apenas um número muito pequeno de doadores de sangue; seria uma testagem cujo objetivo seria o de selecionar sangue negativo para Zika para alguns pacientes especiais, tais como as gestantes que eventualmente precisem de transfusão de sangue.
Hoje, esta estratégia de testagem seletiva é a única que é viável; no entanto, aplicá-la implicar a criação de problemas bio-éticos. Se é necessário transfundir sangue negativo para Zika em gestantes, por que não para outros pacientes, como, por exemplo, os recém-nascidos? Ou para as pessoas submetidas a transplantes de medula óssea? Mais ainda: se o Zika causar efetivamente a Síndrome de Guillain Barré, uma doença neurológica grave, todos não deveriam ter direito de receber sangue testado para o vírus?
É uma questão que está sendo muito debatida neste momento, para a qual ainda não temos a resposta. O ideal, sem dúvida, seria fazer testes para Zika em todo o sangue doado – mas para isso, precisamos de um teste adaptado às necessidades dos bancos de sangue.
Fonte: Fabíola Capalbo – Tino Comunicação