
Em 2025, a arqueóloga Niède Guidon faleceu, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato, município no interior do Piauí que se tornou polo de ciência, educação e turismo graças à visão e perseverança da pesquisadora. Sua história é um caso paradigmático de interiorização da ciência, pesquisa cidadã e bioeconomia, conceitos contemporâneos que Niède já desenvolvia há 50 anos. Para homenageá-la, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) reuniu, no dia 20 de agosto de 2026, amigos, colaboradores e discípulos de Niède Guidon para contar um pouco de sua história.
Niède Guidon chegou ao Piauí em 1973, integrando uma missão franco-brasileira de arqueólogos atraídos pela abundância de pinturas rupestres na Serra da Capivara, no sudeste do estado. As pinturas eram conhecidas pela população local, mas ainda passavam por baixo do radar da ciência acadêmica. A pesquisadora logo percebeu que estava diante de um tesouro, a maior concentração de pinturas rupestres do mundo, numa das regiões até então menos desenvolvidas do país. Enfrentar essa contradição se tornou então a sua missão de vida. “Niède Guidon poderia ter tido uma carreira acadêmica tranquila em qualquer lugar do mundo, mas compreendeu que a ciência precisava transformar a vida das pessoas. O Parque Nacional da Serra da Capivara só existe hoje porque uma mulher se recusou a desistir”, resumiu Helena Nader, presidente da ABC.
Levando instituições científicas para o interior
Uma das primeiras atitudes da Acadêmica foi entrar em contato com o então reitor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), José Camillo da Silveira Filho, e insistir na criação de um núcleo de arqueologia na Serra da Capivara. Quem conta essa história é a arqueóloga Maria Conceição Lage, hoje professora da UFPI e uma das primeiras alunas de Niède. “O professor Camillo, que também era um homem de visão, respondeu: ‘a senhora é a primeira contratada’”. Ato contínuo, Niède insistiu junto ao governador do estado pela demarcação do Parque Nacional da Serra da Capivara, instituído em 1978 e reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1991.
Niède então criou o Núcleo de Antropologia Pré-Histórica da UFPI e formou uma equipe que desde o início já contava com moradores locais. Ao contrário do que muitas vezes acontece, os materiais retirados da Serra da Capivara não eram levados para longe, permaneciam em São Raimundo Nonato, num prédio doado pelo Batalhão Ambiental que se tornou o Centro de Pesquisas Interdisciplinares da UFPI. Vieram os primeiros cursos de especialização em Arqueologia Pré-Histórica e, em 1986, a criação da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM). “Ela sempre teve a preocupação de mostrar à população o que estava sendo feito. Até porque as pessoas viam aqueles sacos nas costas e achavam que ela estava coletando ouro. Então ela abria as portas do prédio e mostrava que ouro era esse que ela havia encontrado”, contou Marcia Chame, pesquisadora da FUMDHAM.
Os primeiros homens americanos?
Se a chegada da pesquisadora reescreveu a história da região, as descobertas lideradas por ela tem o potencial de reescrever a pré-história do continente. Isso porque os vestígios da presença humana na Serra da Capivara, em particular os objetos de pedra lascada abundantes no sítio arqueológico, foram datados entre 20 e 60 mil anos atrás, sendo portanto anteriores ao consenso científico para a chegada humana às Américas. Os dados foram publicados na Nature em 1986, mas a controvérsia segue aberta até hoje, com alas mais céticas levantando dúvidas sobre se os objetos foram realmente feitos por humanos.
Para tentar desvendar esse mistério, Niède convidou o arqueólogo francês Eric Boëda, à época professor da Universidade de Paris Nanterre e uma das principais referências internacionais em pré-história, para conhecer Serra da Capivara analisar os materiais. Presente na homenagem, Boëda contou que suas análises confirmaram a datação, e ele então sugeriu novas escavações ao redor do território, que revelaram novos sítios arqueológicos. “Em todos esses sítios havia ocupação quase permanente desde pelo menos 50 mil anos”, afirma o pesquisador.
Boëda nos lembra que descobertas recentes na América do Norte já empurraram a data da chegada humana para além dos 20 mil anos. Na própria Serra da Capivara, uma imensa placa de pedra com ranhuras aparentemente feitas por humanos foi encontrada e datada em 28 mil anos. A polêmica continua sobre a origem humana desses materiais. Mas se o foco de Niède Guidon sempre esteve nas pinturas rupestres, de datação mais recente, os vestígios de ocupação antiga fazem da Serra da Capivara uma das regiões de maior curiosidade antropológica do planeta, um lugar onde duas hipóteses sobre a dispersão humana se chocam e que ainda pode nos reservar muitas respostas.

Para além da arqueologia
A bióloga Marcia Chame chegou à Serra da Capivara pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com o objetivo de estudar paleoparasitologia, isto é, as doenças parasitárias que já estavam presentes nos primeiros habitantes da região. Entre as descobertas feitas por seu grupo está que a Doença de Chagas é muito mais antiga no continente do que se imaginava. Mas outra coisa que a equipe da Fiocruz logo percebeu foi que olhar apenas para a pré-história não bastaria. No polígono das secas, onde muitas pessoas ainda viviam em condições de extrema pobreza, complementar o atendimento médico à população local era de igual importância.
Por isso, a FUNDHAM desde o início contou com os Núcleos de Apoio à Comunidade (NAC) em áreas como saúde, educação e incentivo a atividades econômicas sustentáveis. Os colégios dos NAC ofereciam aulas em tempo integral com currículo voltado à atuação na Serra da Capivara. Além disso, uma insistência particular de Guidon é que os alunos fossem estimulados nas artes, com aulas de dança, música e teatro. “Os primeiros habitantes da Serra da Capivara deviam ser muito felizes, porque tinham tempo suficiente para criar arte”, repetia a pesquisadora.
O meio ambiente era outro foco de preocupação para Niède Guidon, e também nisso ela estava à frente do seu tempo. A bióloga Rute Maria Andrade chegou à Serra da Capivara como pesquisadora do Instituto Butantan interessada nas aranhas venenosas da região. Ao desembarcar, ela se deparou com a biodiversidade impressionante da Caatinga, bioma que no imaginário popular ainda é entendido como sem vida. “Niède já considerava a interação entre cultura e o meio ambiente e sua influência foi importante para despertar as agências de fomento sobre a importância de estudarmos a Caatinga. Hoje já conhecemos 963 espécies de plantas, 91 de repteis, 23 de anfíbios, 53 de mamíferos e 208 de aves na Serra da Capivara e arredores”, conta.
Para manter estável as condições que permitem toda essa biodiversidade, os NACs incentivaram atividades econômicas alternativas. Hoje, o turismo, o artesanato e a apicultura estão entre as principais fontes de renda da região. Por toda a sua contribuição, Niède Guidon foi eternizada no nome de dois animais da fauna local, a Palaeolama niedae, uma parente já extinta das alpacas, e a Loxosceles niedeguidonae, uma aranha endêmica do semiárido. “Ter seu nome ligado a esses animais demonstra que ela foi reconhecida por seus pares. É uma homenagem fantástica”, resumiu o paleontólogo Diógenes Almeida Campos.
Ressignificando a memória
O processo de demarcação de um parque nacional envolve a criação de uma zona sem habitação humana, e na Serra da Capivara isso significou algumas rupturas. Comunidades sertanejas que viviam na região precisaram ser realocadas e, dada a predominância de Niède Guidon, era natural que ela acabasse associada à alguns desses processos. O arqueólogo Iderlan Santana nasceu em uma dessas assentamentos, o Zabelê, que foi desapropriado em 1988. Hoje ele trabalha como guia turístico e diretor do Museu Zabelê, no município vizinho de José Dias, buscando contar a história de sua comunidade. “Meu trabalho não é romantizar o passado, mas rememorar, até como forma de valorizar o que temos hoje”, reflete.
Outro caso de sucesso é o da arqueóloga Marian Helen Rodrigues, hoje chefe do Parque Nacional da Serra da Capivara, a pesquisadora conta que cresceu vendo a transformação de seu território pelas mãos de uma mulher. “A gente observava aquela mulher de calças, dirigindo caminhonetes e dando ordens e pensávamos: ‘nós também podemos!’”. Discípula de Niède, Marian conta que a professora quase a obrigou a fazer pos-graduação no exterior. Ao retornar, ela a ajudou a fundar o Instituto Olho d’Água, dedicado a preservar a memória comunitária da região. “O maior legado da ciência é mudar a relação das pessoas com o território e hoje a Serra da Capivara é um polo de desenvolvimento sustentável no estado do Piauí”, finaliza.
Assista à homenagem completa:
Fonte: Academia Brasileira de Ciências (Por: Marcos Torres para ABC)
