| Em 23/09/2019

Estudo avaliou as condições de vida de moradores de rua na cidade de Manaus

Foto: Érico Xavier.

O que leva uma pessoa a morar nas ruas? Quais as condições de vida dessas pessoas? Um estudo científico buscou avaliar e apresentar essas questões de forma sistematizada a partir de uma investigação qualitativa voltada às condições de vida e saúde de pessoas em situação de rua na cidade de Manaus. O trabalho foi realizado com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), por meio do Programa de Apoio à Iniciação Científica (Paic).

A pesquisa, finalizada em 2016, foi desenvolvida na época pela estudante do 5º período do curso Serviço Social, Nayara Campos,  e teve uma parte de resultados descritos no livro “(Sobre) Vivências nas ruas de Manaus”, que relata histórias, condições de vida e políticas públicas.

O projeto gerou continuidade no tema, em pesquisa enfatizando a questão da adesão ao tratamento em HIV pela população de rua, atualmente sendo desenvolvida por Lucélia Regina Araújo, aluna do 5º período de Direito,  sob a orientação da doutora em Serviço Social, Rosiane Pinheiro Palheta, da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa).

Segundo Rosiane, os estudos sobre a chamada população de rua ainda são pouco conhecidos no Brasil devido à realidade de uma população itinerante que dificulta a contagem de maneira mais contundente, e à própria conceituação sobre o que seria o “morador de rua”.

“A percepção da população em situação de rua ainda necessita de um olhar mais atento e de políticas públicas que sejam dirigidas a este público, de maneira a minimizar a exclusão de toda ordem de que são vítimas. Sobretudo, de políticas de habitação e assistência social, que provenham abrigo e moradia àqueles que assim desejam sair das ruas”, contou.

Para a estudante Lucélia Regina Araújo,  que está em continuidade no trabalho, focando agora na questão da adesão ao tratamento em HIV pela população de rua, os projetos são a base para as mudanças de muitas realidades e, especialmente este, que abrange uma parte marginalizada da sociedade que também precisa de atenção e ajuda. “Trazer maior qualidade de vida para eles futuramente através da pesquisa é o maior objetivo visado”, relata Lucélia.

Aplicabilidade – O estudo foi aplicado com 144 pessoas no Centro de Manaus  por meio de pesquisa de campo nas ruas, com o  apoio do Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP), da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc), que visa ofertar  trabalho técnico para a análise das demandas dos usuários, orientação individual e grupal e encaminhamentos a outros serviços socioassistenciais e das demais políticas públicas que possam contribuir na construção da autonomia, da inserção social e da proteção às situações de violência.

Segundo Rosiane Palheta, algumas características foram observadas conforme o mapeamento: verificou-se nos resultados que, quanto ao gênero, a população em situação de rua, em sua maioria, é do sexo masculino, e  que o maior percentual de pessoas nessa condição está na  faixa etária de  31 a 40 anos. Pessoas acima de 60 anos registraram o menor número durante o período pesquisa.

A partir da análise dos dados, foi possível compreender as inúmeras estratégias de que as pessoas em situação de rua têm de lançar mão e as dificuldades que enfrentam no seu dia a dia para sobreviver. São pessoas que se encontram expostas a condições de vida precárias, sem acesso aos direitos básicos, entretanto, muitas delas optam por estar na rua por considerá-la o lugar de maior representatividade da proteção e da liberdade.

Rosiane explica que, em muitos casos, percebeu-se que a saída das ruas não é vista como em evento positivo ou não significa necessariamente melhoria de vida, pois a rua representa, por si, fonte de sobrevivência, trabalho e, sobretudo, espaço profícuo de relações sociais e estabelecimento de vínculos afetivos representativos.

“Durante a pesquisa, conversando com os moradores, muitos deles se acostumam com a vida na rua e maioria não quer sair. Quando se retira um indivíduo da rua, contra a sua vontade, há todo um processo, que muitas vezes não é o melhor caminho, quando a necessidade de reprodução de vida está vinculada à rua. São conhecidos alguns casos de moradores que foram retirados das ruas e não conseguiram se adaptar a outro estilo de vida; alguns até adoecem”, relata.

A questão das pessoas em situação de rua  na maioria das vezes está ligada a família, desemprego, conflitos familiares, dependência química, problemas psíquicos, abandono, rompimento de vínculos afetivos, dentre outros. “A situação de rua tem um vínculo muito presente com as questões familiares, geralmente desencadeadas na infância. Em muitos depoimentos foram bem presentes situações de violência e estupro por algum membro da família, o que levou ao abandono do lar, como única forma de sair da situação de violência”,  relata a pesquisadora.

Levantamento – De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de  2015, o Brasil tem 101 mil moradores de rua. A pesquisa aponta que a maior parte  está concentrada nos municípios.  Conforme a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), em Manaus, a maior parte se concentra no Centro da capital Amazonense  e não há dados sobre números oficiais dessa população.

Sobre o Paic – O programa apoia Instituições de Ciências e Tecnologias (ICT’S), de natureza pública ou privada, sem fins lucrativos, sediadas no estado do Amazonas, por meio da concessão de bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica, sob a forma de cotas. A Fapeam tem como missão fomentar a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico, a inovação e formação de recursos humanos.

Fonte: Comunicação Fapeam.

Leia também

Em 05/10/2026

O que os movimentos do corpo podem revelar sobre os níveis de ansiedade?

Vida corrida, pressão diária e incertezas fazem parte da rotina de muitas pessoas. Mas será que os movimentos do nosso corpo, registrados por um smartwatch, podem ajudar a identificar diferentes níveis de ansiedade? Foi justamente essa pergunta que levou pesquisadores do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF) a investigar se técnicas de Inteligência […]

Em 02/10/2026

Nova ferramenta de IA prevê rota e intensidade de tempestades em curtíssimo prazo

Saber com exatidão a rota de uma tempestade e a intensidade da chuva para os próximos 30 minutos deixou de ser um desafio que exige supercomputadores. Uma nova ferramenta – desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP) e denominada TITAN-LSTM – une dados de radares meteorológicos e inteligência artificial para realizar previsões de curtíssimo prazo, […]

Em 30/09/2026

Aplicativo gratuito auxilia portadores do espectro autista nas tarefas diárias

Tudo começou durante uma conversa com um sobrinho de 5 anos, que cuida de um tamagotchi. Para quem não lembra, o tamagotchi é uma espécie de pet digital, um famoso bichinho virtual que virou uma febre mundial nos anos 90. Usado por quem não pode (ou não quer) ter um pet de verdade, também exige […]

Em 24/09/2026

Facepe se torna sócia da SBPC e amplia presença das FAPs nordestinas na entidade

A Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe) é a mais nova instituição a integrar o quadro de sócios institucionais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Criada pela Lei Estadual nº 10.401/1989 e vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco (Secti), a Fundação tem como missão […]

Em 22/09/2026

Divulgado o resultado da chamada CONFAP–Brasillinois 2026 

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP), em parceria com o Programa de Mobilidade Brasillinois, publicou, nesta terça-feira (22), o resultado da chamada CONFAP–Brasillinois 2026. A iniciativa tem como objetivo apoiar projetos conjuntos de pesquisa entre cientistas brasileiros e pesquisadores de universidades do estado de Illinois, nos Estados Unidos. A chamada […]