| Em 28/03/2019

Trypanosoma cruzi circulantes no Amazonas pode auxiliar no diagnóstico da Doença de Chagas Crônica

Pesquisa científica apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) tem o intuito de desenvolver em laboratório testes imunológicos, in house, para o diagnóstico sorológico da Doença de Chagas Crônica, utilizando linhagens de Trypanosoma cruzi, agente etiológico da enfermidade, circulantes no Estado.

A intenção é produzir um kit de teste imunológico in house, que significa em casa (no laboratório), considerando que a matéria-prima, ou seja, a linhagem do parasito circulante na região foi isolado, pelos pesquisadores, e conservado para os ensaios.

A pesquisa é desenvolvida nos laboratórios de entomologia da Fundação de Medicina Tropical, Dr.Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), por meio do Programa de Apoio à Pesquisa (Universal Amazonas), edital N°002/2018, e envolve alunos de mestrado e doutorado em doenças tropicais e infecciosas, do programa de Pós-graduação em Medicina Tropical da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que funciona em parceria com a FMT-HVD.

Sobre a Doença de Chagas
A coordenadora do projeto, Maria das Graças Vale Barbosa Guerra, explica que a Doença de Chagas é uma enfermidade infecto-parasitária, causada pelo protozoário T. cruzi, encontrado nas fezes de insetos conhecidos como barbeiros. A doença se manifesta em duas formas clínicas, uma fase aguda e uma fase crônica. Nas duas fases pode haver manifestação ou não de sintomas clínicos. Quando há manifestação na fase aguda os sintomas podem ser febre, miocardites, mialgia (dor muscular), e na fase crônica problemas cardíacos e digestivos são os mais frequentes.

“Se houver o surgimento de sintomas no início da doença, a pessoa pode ser diagnosticada e tratada. Porém, se não houver sintomas e passado o tempo que caracteriza a fase aguda da doença (oito semanas), a pessoa infectada pode se tornar portadora da doença crônica, sem saber, pois pode continuar assintomática, e ser diagnosticada eventualmente ou quando já estiver com comprometimentos sérios, principalmente, cardíacos”, explicou.

Por esse motivo, Maria das Graças explica que o diagnóstico precoce é altamente recomendado para que o tratamento seja realizado o quanto antes, visando a redução das graves consequências que a infecção pelo T. cruzi pode causar em longo prazo. A identificação deve basear-se em uma combinação de resultados, incluindo exames laboratoriais, o histórico clínico e epidemiológico, a detecção do parasito e/ou a realização de testes sorológicos.

Método
Para a pesquisadora, de maneira geral, há uma grande dificuldade no diagnóstico da Doença de Chagas Crônica, principalmente, porque os testes para o diagnóstico sorológicos disponíveis no mercado, não apresentam boa sensibilidade, particularmente para nossa região, em razão de diferentes fatores, entre eles, o fato de que os testes comerciais não utilizam em seus protocolos as mesmas linhagens de T. cruzi encontradas na Amazônia e particularmente no Estado.

“O nosso objetivo é obtermos antígenos de isolados de T. cruzi conservados em nosso laboratório para utilizá-los em testes imunológicos, buscando detectar maior sensibilidade no teste, com perspectivas de melhorar o diagnóstico da Doença de Chagas Crônica no Estado”, disse.

Segundo Maria das Graças, o grupo de trabalho obteve 28 diferentes extratos de antígenos utilizando os isolados de T. cruzi encontrados no Amazonas. Essas substâncias já foram avaliadas pelo método de ELISA in house, e na próxima fase esses antígenos serão submetidos a testes mais específicos para avaliar as atividades e a sensibilidade desses testes.

Doença Negligenciada
A pesquisadora destaca a importância de validar o estudo sobre o tema porque a Doença de Chagas é uma doença negligenciada que afeta entre 6-7 milhões de pessoas no mundo, sendo 1.6 milhão no Brasil. “Hoje a Amazônia é a região responsável pelo maior número de casos da doença na sua forma aguda principalmente em surtos associados ao consumo do açaí (nos casos em que o fruto esteja contaminado pelo T. cruzi a partir das fezes de barbeiros silvestres) um importante alimento que faz parte da dieta nutricional da população”, disse.

Transmissão
Existem diferentes formas de transmissão, ou contaminação do homem pelo T. cruzi. A forma de transmissão clássica é a vetorial, transmitida pelo contato com as fezes de insetos triatomíneos infectados, conhecidos também como barbeiros. No entanto, existem outras formas de transmissão, como a vertical (congênita – da mãe para o bebê), por transfusão de sangue ou transplantes de órgãos contaminados, acidentes laboratoriais e a forma oral, que tem sido reportada frequente na Amazônia associada ao consumo de frutos como o açaí e a bacaba contaminados.

De acordo com Maria das Graças, atualmente os barbeiros estão sendo encontrados cada vez mais com frequência dentro de casas e apartamentos, construídos próximos a áreas de floresta fragmentadas, em diferentes áreas dentro de Manaus, sejam urbanas, periurbanas ou rurais, e isso vulnerabiliza a população porque possibilita o contato desses insetos com as pessoas, na medida em que não conhecendo a dinâmica de transmissão da doença, muitas vezes matam os barbeiros esmagando-os. Nesse caso, se o barbeiro estiver infectado, podem ter contado com as fezes do parasito e se infectar.

Doença de Chagas no Amazonas
De acordo com a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) em 2017 foram notificados nove (9) casos da Doença de Chagas no estado do Amazonas contra 32 em 2018. E entre anos de 2011 e 2018 foram notificados 96 casos da Doença de Chagas no Amazonas.

Fonte: Departamento de Comunicação e Difusão do Conhecimento – Decon Fapeam.

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