| Em 13/02/2019

Por que algumas pessoas têm predisposição a desenvolver hanseníase?

(Foto: Said Mendonça)

Pesquisadores do Amazonas investigam o que torna uma pessoa predisposta a desenvolver hanseníase, enquanto outras se mostram resistentes à doença, mesmo em contato prolongado e frequente com um indivíduo infectado e sem tratamento.

Para responder a esse questionamento, o coordenador do projeto, Marcadores Moleculares, Genéticos e Sorológicos na hanseníase: suporte ao diagnóstico clínico de pacientes e vigilância dos contatos, e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical, André Luiz Leturiondo, iniciou em março de 2016, um estudo com dois enfoques importantes na vigilância epidemiológica da hanseníase. Um deles nos pacientes e o outro nos contatos domiciliares de pacientes com hanseníase.

A pesquisa está sendo desenvolvida no laboratório de Biologia Molecular da Fundação Alfredo da Matta (Fuam), com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), por meio do Programa de Pesquisa para o SUS: Gestão compartilhada em saúde (PPSUS),  chamada pública Nº 001/2013. A Fuam é a unidade de referência para o diagnóstico, tratamento e pesquisa da hanseníase no Amazonas e na região Norte do país.

De acordo com o coordenador a manifestação da doença não depende somente da infecção pelo bacilo Mycobacterium leprae, mas de outros fatores como o nutricional, o status socioeconômico e principalmente o fator genético do hospedeiro também influenciam. “A maioria das pessoas que tem o bacilo em seu organismo, o próprio sistema imunológico consegue destruir o patógeno. Apenas uma parcela pequena da população, em torno de 10% dos contatos, desenvolve a doença”, disse.

Metodologia

Para embasar o estudo foram colhidas amostras biológicas de 980 indivíduos sadios (linfa do lóbulo auricular), 413 pacientes (sangue) e 415 contatos (sangue + linfa), com idades entre 10 a 77 anos.

Para validar o estudo, o pesquisador procurou identificar três tipos de biomarcadores: a) sorológico: detecção de anticorpos anti-PGL1 no soro dos voluntários (pacientes + sadios). Esses anticorpos identificam o antígeno do M. leprae, o PGL1 (Phenolic Glycolipid 1); b) detecção molecular do gene 16S (DNA do bacilo) no lóbulo auricular dos contatos que convivem com o doente; e c) polimorfismos em genes envolvidos com a resposta imune inata e adaptativa dos pacientes e indivíduos sadios.

O teste rápido sorológico foi aplicado para avaliar a sua performance, ou seja, a capacidade de identificar indivíduos com e sem a doença. Na técnica molecular, Leturiondo explica, o teste é capaz de detectar o DNA do bacilo mesmo na ausência de lesões na pele. “Nosso estudo procurou validar novas alternativas de diagnóstico ou de prognóstico, para serem aplicadas em suspeitos da doença ou contatos, respectivamente. Geralmente a doença apresenta os sinais cardinais que facilitam o diagnóstico: lesões na pele que apresentam insensibilidade a dor, ao tato e ao calor. Porém, em 30% dos casos, os suspeitos da doença não apresentam esses sinais, dificultando o diagnóstico precoce e o tratamento imediato. Outro agravante é que na nossa região existem muitas dermatoses que são semelhantes com as lesões da hanseníase, dificultando um diagnóstico diferencial até mesmo para os profissionais experientes da Instituição”, explicou.

O coordenador informou ainda que os resultados da pesquisa poderão auxiliar o médico na tomada de decisão dos casos difíceis (suspeitos com a doença) para o teste sorológico; ou de identificar os prováveis sujeitos que poderão adoecer (contatos) para os testes moleculares e genéticos.  Neste último caso, poderão tratar talvez com quimioprofilaxia.

Hanseníase no Amazonas

A hanseníase é uma doença infecto-contagiosa causada pelo bacilo Mycobacterium leprae e transmitida pelas vias aéreas superiores, afetando principalmente nervos periféricos e pele, e quando não tratada pode levar a incapacidades físicas muitas vezes irreversíveis.

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), em 2018 foram detectados 411novos casos da doença. O Sistema Nacional de Atendimento Médico (Sinam) registrou desde 2010, 5.031 novos casos de hanseníase no estado do Amazonas.

Segundo o parâmetro do Ministério da Saúde, no estado do Amazonas, a Hanseníase apresenta comportamento descendente com redução da incidência nos últimos anos, passando de 44,3/100.000 habitantes em 2000 para 10,11/100.000 habitantes em 2018, o que representou uma redução de 77,1%, mas, com parâmetro de endemicidade ainda alto.

Atualmente, o tratamento é feito à base de antibióticos fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e tem duração de 6 a 12 meses.

 

Fonte: Comunicação Fapeam.

 

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