| Em 01/12/2017

Os mistérios revelados pelos ovos de pterossauros

Detalhe de esqueleto de um embrião encontrado dentro de um ovo de pterossauro. Foto: Alexander Kellner.

A descoberta de um ninho com fósseis de centenas de ovos e alguns embriões de pterossauros – os répteis voadores da pré-história –, na região da cidade de Hami, no noroeste da China, ajuda a revelar detalhes ainda desconhecidos pela ciência sobre a vida desses vertebrados, como a sua reprodução e o seu desenvolvimento. O trabalho de pesquisa, que conta com a participação do paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ), é realizado em parceria com diversas instituições internacionais e nacionais e resultou na publicação de um artigo na renomada revista científica Science, divulgado nesta quinta-feira, 30 de novembro, com o título Egg acumulation with 3D embryos provides insight into the life history of a pterosaur.

“Até então, só se tinha registro científico de quatro descobertas de fósseis de ovos de pterossauro no mundo, dois na Argentina e dois na China”, explica Kellner, que desde 2004 viaja anualmente a China para participar de pesquisas paleontológicas. Os ovos encontrados são da espécie de pterossauro Hamipterus tianshanensis, que viveu há 120 milhões de anos, durante o período Cretáceo Inferior. “Até agora, confirmamos 215 ovos, ao analisarmos um bloco de rocha de 3,2 metros quadrados. O número total estimado nesse bloco é de 300 ovos. Nunca antes foram encontrados tantos ovos juntos em uma área tão pequena”, completa o paleontólogo, que é Cientista do Nosso Estado, da Faperj.

A espécie Hamipterus tianshanensis foi descrita pela primeira vez por Kellner e colegas chineses em 2014, em artigo publicado na capa na revista americana Current Biology, uma das principais publicações internacionais na área de ciências biológicas. Exímios voadores, esses animais tinham uma envergadura de 1,5 a 3,5 metros, considerando as extremidades entre uma asa e outra, e dentes bem desenvolvidos. Ele conta que o local da descoberta é uma região desértica nos arredores na cidade de Hami, localizada na província de Xinjiang.

“Descobrimos, ao analisarmos uma seção de rocha de 2,2 metros, oito níveis diferentes com concentração de ossos de pterossauros, sendo que em quatro deles tinha ovos. O fato de existir essas camadas cumulativas significava que os animais deviam retornar ao mesmo local para ocasionalmente colocar os seus ovos. As fêmeas faziam desse lugar uma colônia de nidificação para a postura sazonal dos seus ovos”, detalha.

Também foi possível entender porque tantos ovos foram preservados no mesmo local. “Com base em dados geológicos, verificamos que chuvas torrenciais faziam com que os rios transbordassem e reunissem em um só lugar, com a força da água, os ovos postos naquela área, que horas depois eram soterrados juntos pelas intempéries. Então, todos os ovos se concentraram em um espaço comparativamente pequeno, como o que acabamos de estudar”, explica Kellner.

Outro fator que chamou a atenção é a delicadeza dos ovos de pterossauro. “Os ovos de pterossauro costumam ser muito frágeis, porque têm casca mole, já que a parte externa da casca mais dura, mineralizada, de carbonato de cálcio, é fina, e a parte interna, membranosa. Assim, eles deformam mas não quebram, como os ovos de dinossauro, por exemplo, que são muito mais resistentes e, por isso, comuns no registro fossilífero. Raridade são os ovos de pterossauro”, detalha.

Junto com a descoberta dos ovos, veio mais uma boa surpresa para os pesquisadores. Foram encontrados embriões de pterossauros em um raro estado de boa preservação – em dimensões tridimensionais (3D). “Encontramos restos de 16 embriões de Hamipterus tianshanensis. Eles não estão completos, mas estão preservados em 3D, o que permitiu um estudo mais aprofundado. Pudemos fazer análise de tomografia computadorizada para ver o interior do ovo de alguns embriões e estudar como se deu o desenvolvimento deles”, destaca. “Esse é um grande diferencial dessa descoberta.”

A partir dessas análises, a equipe percebeu uma característica curiosa. Os ossos vinculados ao voo (o úmero) era pouco desenvolvido nos embriões de pterossauros prestes a nascer. Por outro lado, o osso fêmur, das pernas do animal, eram bem formados. “Chegamos à conclusão que esse filhote podia caminhar, mas não voar, logo depois que nascia. Isso indica que o cuidado parental, que podia ser paterno ou materno, era indispensável para a sobrevivência e o desenvolvimento dessa espécie de réptil voador. Essa é uma descoberta interessante, porque antes se acreditava que eles eram como os demais répteis que conhecemos hoje, como o jacaré, que já tem maior independência depois que nasce. Agora sabemos que eles não podiam voar logo depois do nascimento, pelo menos na espécie Hamipterus tianshanensis, graças ao estudo dos fósseis desses embriões”, conclui o pesquisador.

A pesquisa também foi contemplada, no Brasil, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e foi financiada, em grande medida, na China, pelo Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados (IVPP), localizado em Pequim, e pelo Museu de Hami. “Hoje, vivemos em uma situação difícil para a ciência no Brasil. É preciso manter um financiamento contínuo das pesquisas para podermos produzir, e até para podermos estabelecer parcerias internacionais. A China, por exemplo, tem um número considerável de artigos na área de paleontologia publicados em revistas de peso, como a Nature e a Science, pois conta com fomento contínuo”, ponderou.

Além de Kellner, assinam o artigo os pesquisadores brasileiros Taissa Rodriges, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes); e Juliana Sayão e Renan Bantim, ambos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Também são autores os pesquisadores chineses Xiaolin Wang, Shunxing Jiang, Xin Cheng, Qiang Wang, He Chen, Ning Li, Jialiang Zhang, Xi Meng, Xinjun Zhang, Rui Qiu e Zhonghe Zhou – todos do IVPP –; e Yingxia Ma e Yahefujiang Paidoula, do Museu de Hami.

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Débora Motta).

Leia também

Em 26/08/2026

Divulgados os finalistas do Prêmio CONFAP de Ciência,Tecnologia & Inovação – Professora Niède Guidon (5ª Edição)

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) publicou, nesta quarta-feira (26), a lista dos(as) candidatos(as) finalistas da Etapa Nacional do Prêmio CONFAP de Ciência, Tecnologia & Inovação – Professora Niède Guidon (5ª Edição).  Em sua quinta edição, a premiação nacional promovida pelo CONFAP conta com patrocínio da Financiadora de Estudos e […]

Em 24/08/2026

Profix-CB: FAPs de 16 estados já lançaram chamadas de fixação de doutores; confira os editais

Das 27 Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) que aderiram ao Programa de Apoio à Fixação de Doutores no Brasil – Conhecimento Brasil (Profix-CB), 16 já lançaram chamadas ou editais para o programa. O Profix tem como objetivo incentivar a fixação a doutores em áreas estratégicas de ciência, tecnologia e inovação para estados e […]

Em 24/08/2026

Niède Guidon é homenageada na Academia Brasileira de Ciências

Em 2025, a arqueóloga Niède Guidon faleceu, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato, município no interior do Piauí que se tornou polo de ciência, educação e turismo graças à visão e perseverança da pesquisadora. Sua história é um caso paradigmático de interiorização da ciência, pesquisa cidadã e bioeconomia, conceitos contemporâneos que Niède já desenvolvia há 50 […]

Em 19/08/2026

34ª Edição do Programa Bolsas de Verão do CNPEM seleciona universitários da América Latina e do Caribe

O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) abriu inscrições para a 34ª edição do Programa Bolsas de Verão (PBV), uma iniciativa que, desde 1992, tem capacitado jovens universitários da América Latina e do Caribe. O programa é destinado a estudantes de graduação das ciências exatas, biológicas, da terra, da saúde, além de engenharias […]

Em 19/08/2026

Pesquisadores criam ‘vacina inteligente’ e mais segura contra chikungunya

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores alemães desenvolveram uma estratégia inovadora para a produção de vacinas. Em artigo publicado na revista npj Vaccines, o grupo apresenta a criação de um “imunizante inteligente” a partir de uma versão geneticamente modificada do vírus chikungunya. A grande vantagem dessa tecnologia é que o patógeno só consegue se replicar […]

Em 14/08/2026

Empreendedores do HUB RJ Startup levam seus projetos ao RIW 2026

Empreendedores de todo o estado do Rio de Janeiro, vinculados ao programa HUB RJ Startup, da FAPERJ e da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), participaram, pelo segundo ano consecutivo, do Rio Innovation Week (RIW). Startups selecionadas para a terceira e última fase do edital apresentaram aos visitantes do RIW 2026 o andamento de […]

Em 07/08/2026

MCTI e União Europeia promovem sessão informativa sobre a primeira chamada transnacional conjunta da parceria RAMP

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Delegação da União Europeia no Brasil realizam, no dia 14 de agosto de 2026 (sexta-feira), uma sessão informativa sobre as oportunidades de participação de instituições brasileiras na primeira chamada da Raw Materials Partnership for the Green and Digital Transition (RAMP). O encontro será realizado das […]

Em 17/07/2026

CONFAP e FAPs levam programação especial à 78ª Reunião Anual da SBPC, em Niterói

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) participarão da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada entre os dias 26 de julho e 1º de agosto de 2026, na Universidade Federal Fluminense (UFF), Campus Gragoatá, […]