| Em 02/05/2017

Pesquisadores mineiros estudam propriedades da aranha armadeira

A aranha armadeira é conhecida por ser agressiva e altamente venenosa. Sua picada é dolorosa e, dependendo da quantidade de veneno injetada, há sérios riscos para a saúde da vítima. Entretanto, nem tudo que é ruim deve ser hostilizado. É que no meio de tanto “perigo” pode estar a solução para um dos problemas que mais causam pânico nos homens: a impotência sexual. Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Ezequiel Dias (Funed), apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), conduziram estudos para utilizar o veneno do aracnídeo como base para uma droga ativa contra a disfunção erétil.

A pesquisa teve início há cerca de dez anos, quando a toxina PnTx2-6 (uma proteína pequena responsável por causar ereção e obtida anteriormente pelos pesquisadores da Funed) foi estudada quanto ao seu modo de ação, pela equipe da UFMG. Ocorre que essa toxina, mesmo sendo capaz de potencializar a função erétil, é muito tóxica e não serviria como uma droga para o tratamento da disfunção erétil, em virtude dos efeitos colaterais e danos ao organismo. Por isso, os pesquisadores e dentre eles a doutora da UFMG, Carolina Nunes, utilizaram a PnTx2-6 como modelo, sintetizaram um peptídeo menor (PnPP-19) que potencializa a ereção sem causar efeitos colaterais. “A grande vantagem é que, diferentemente do que se encontra no mercado, este novo estudo tem como objetivo desenvolver um gel para aplicação tópica e, portanto, com grande chance de não apresentar, ou de minimizar possíveis efeitos colaterais”, explica a coordenadora do projeto, Maria Elena de Lima, professora titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Os testes pré-clínicos, em grande parte, já foram realizados em animais e mostraram resultados promissores, inclusive em hipertensos e diabéticos. “Sabe-se que a hipertensão e o diabetes levam à disfunção erétil. Além do mais, PnPP-19 não mostrou toxicidade, nem induziu reações alérgicas em testes padrões nos animais, sendo uma droga alternativa para pacientes que não podem fazer uso dos medicamentos convencionais indicados para tratar a disfunção erétil”, pontua.

Ainda de acordo com a coordenadora da pesquisa, o estudo buscará desenvolver outras moléculas menores e ativas derivadas do PnPP-19. Ocorre que, quanto menor a molécula, mais barato fica o processo de síntese e isso influencia o preço do produto final para o consumidor. “Já conseguimos sintetizar uma molécula menor que é mil vezes mais ativa do que o PnPP-19”, complementa a pesquisadora. Outros testes estão sendo realizados no exterior em laboratórios credenciados, visando-se agilizar o processo e a expectativa é que o produto chegue ao mercado em 2023. Em paralelo, a pesquisadora informou que testes de biodistribuição estão sendo realizados e que os resultados poderão informar se o peptídeo (aplicado topicamente em gel) seria absorvido pelo organismo, chegando à corrente sanguínea, ou se permaneceria sobretudo no corpo cavernoso do pênis, sendo depois metabolizado e eliminado pela urina.

Sobre a tecnologia e patente
O pedido de patente refere-se ao peptídeo sintético de 19 aminoácidos, denominado inicialmente PnTx19, e depois de PnPP-19, construído a partir de estudos da sequência da toxina nativa PnTx2-6, purificada do veneno da aranha Phoneutria nigriventer. Essa tecnologia pertence à UFMG em cotitularidade com a Fapemig e com a Funed. Em dezembro de 2016, foi feita a transferência de tecnologia para a empresa Biozeus, que passou a ter os direitos de exploração da molécula e está trabalhando em conjunto com os pesquisadores da UFMG para aumentar o valor agregado do produto. Após os testes pré-clínicos, a próxima etapa será os testes clínicos que envolvem seres humanos. Se o processo seguir normalmente, a sequência é buscar uma indústria farmacêutica interessada em fabricar o produto, sob a forma de gel, para o tratamento da disfunção erétil.

Fonte: Comunicação Fapemig (texto: Tatiana Nepomuceno).

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