| Em 23/04/2016

Pesquisadores fluminenses comprovam que Zika vírus causa microcefalia fetal

A relação entre o vírus da Zika e a microcefalia em fetos foi comprovada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), que divulgaram seus resultados na tarde desta segunda-feira, 11 de abril, durante coletiva de imprensa realizada na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Até então, em meio à epidemia de mais de mil casos de microcefalia no País, os cientistas ainda não tinham comprovação de que o vírus da Zika é o causador desta alteração no desenvolvimento do cérebro de bebês. O estudo, resultado de um esforço coletivo de pesquisa em tempo recorde – foram apenas 25 dias de trabalho incessante, entre 6 de fevereiro e 2 de março –, ganhou destaque com a publicação de um artigo na revista Science, uma das mais conceituadas do mundo.

[cml_media_alt id='8510']foto Lecio Augusto Ramos[/cml_media_alt]

A partir da esq.: Jerson Lima Silva, Augusto C. Raupp, Roberto Leher, Elisa Reis, Jorge Moll e Stevens Rehen (Fotos: Lécio Augusto Ramos)

Para se ter ideia da relevância dessa conquista, em 136 anos de existência da Science, raros foram os trabalhos realizados por cientistas lotados exclusivamente no Brasil e publicados na revista. Intitulado Zika virus impairs growth in human neurospheres and brain organoids(http://science.sciencemag.org/content/early/2016/04/08/science.aaf6116.full), o artigo é assinado por diversos pesquisadores, que já têm uma longa experiência nessa área de estudo. São eles: Patricia Pestana Garcez, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB/UFRJ) e do Idor; Erick Loiola, Rodrigo Madeiro da Costa, Pablo Trindade e Stevens Rehen – todos do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE/UFRJ) e do Idor; Luiza Higa, Rodrigo Brindeiro e Almicar Tanuri, do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ; Rodrigo Delvecchio, do Instituto de Biologia da UFRJ; e Juliana Minardi Nascimento, pesquisadora do Idor e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A partir de células-tronco reprogramadas, os cientistas, liderados por Stevens Rehen, da UFRJ e do Idor, criaram estruturas conhecidas como minicérebros, que simulam as células do cérebro humano durante o desenvolvimento e, por isso, são um excelente modelo para investigar o que acontece no sistema nervoso após a infecção com o vírus da Zika. “Infectamos essas estruturas com o Zika vírus a fim de observar as consequências para a formação do cérebro fetal e chegamos à conclusão de que, nos modelos investigados – de 11 dias de vida, que simulam o córtex cerebral de um feto com um mês de gestação –, houve uma redução de 40% no crescimento”, destacou Rehen.

Ele contou que os minicérebros estão entre as novíssimas tecnologias utilizadas por pesquisadores de ponta nas melhores universidades do mundo, sendo o Instituto D’Or um dos primeiros a abrigar a estrutura necessária para sua manutenção e desenvolvimento. Eles são uma aplicação do que genericamente os cientistas chamam de organoides – capazes de simular os estágios de desenvolvimento dos diferentes órgãos do corpo humano. Como não são irrigados e nutridos pelos vasos sanguíneos, não crescem muito, alcançando cerca de dois milímetros de tamanho. Estes minicérebros são gerados a partir da obtenção de células-tronco não-embrionárias, adquiridas em amostras de urina e, posteriormente, convertidas em neurônios.

Os organoides que vêm sendo utilizados para simular as condições do cérebro pela equipe brasileira permitem o estudo das células neurais em estágio precoce, dividindo-se após a infecção com o Zika vírus. “Ninguém sabe ainda como o Zika atua no tecido cerebral. Observamos por imagens feitas no microscópio eletrônico que o vírus causa uma grande alteração na organização dessas neuroesferas, o que culmina com a destruição total desse tecido, por morte celular”, ressaltou Rehen. O neurocientista lembrou que o grau de toxicidade do vírus depende do estágio de desenvolvimento da célula neural. “Quanto mais precoce a infecção, pior é para o desenvolvimento do cérebro. Com as células isoladas, observamos que, em três dias, o vírus da Zika é capaz de destruir 80% da cultura, o que atesta como ele é agressivo”, completou.

Stevens Rehen (à dir.) e o grupo de pesquisadores da UFRJ e Idor
     assinam o artigo publicado na Science: trabalho em equipe

Agora, a equipe está correndo contra o tempo para testar os efeitos de diversos medicamentos nos minicérebros infectados, determinada a decifrar qual fórmula será eficaz contra o vírus. A vantagem é que esses medicamentos já estão nas prateleiras das farmácias e, se os cientistas comprovarem a eficácia de algum deles em reduzir os danos às células neurais causados pela doença, eles poderão ser utilizados prontamente pelas gestantes, sem a necessidade do aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de registro de patente. Trata-se de um trabalho desafiador. ”Dez medicamentos possíveis estão sendo testados e um deles apresenta chances promissoras. Os testes começaram há três semanas e acontecem dia e noite. Para isso, contamos com a ajuda de dois robôs, que fazem análises automatizadas em larga escala. Eles ajudam não só na velocidade dos testes, mas na precisão dos movimentos. A expectativa é boa para os próximos meses”, avaliou Rehen.

Em um curto espaço de tempo,  o artigo foi lido por mais de dez mil pessoas no site da Science. Devido à urgência da epidemia de Zika e seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), a tradicional revista flexibilizou os critérios de publicação e aceitou divulgar o pré-print do artigo. “Espero que a publicação do artigo na Science contribua para reafirmar a ciência brasileira de fato como uma ciência internacional”, ponderou Rehen. Ele também reconheceu a importância do apoio da FAPERJ ao longo de sua trajetória e de outros pesquisadores da rede. “Sou bolsista da Fundação desde a Iniciação Científica. Todos os colegas em algum momento da carreira receberam apoio da FAPERJ”, concluiu.

A publicação deste resultado pelos cientistas brasileiros ocorre no momento em que há um esforço internacional de pesquisa para tentar desvendar as causas da epidemia de Zika e sua relação com a microcefalia. Nessa corrida científica, um dia após a divulgação dos resultados da equipe brasileira na sede da ABC, pesquisadores do órgão de controle epidemiológico dos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), publicaram um estudo nesta quarta-feira, 13 de abril, confirmando a relação entre a infecção pelo vírus Zika em mulheres grávidas e problemas de má-formação congênita em bebês, como a microcefalia. O estudo foi publicado no jornal científico The New England Journal of Medicine (NEJM) e classificou como suficientes as evidências para confirmar a correlação.

Diversas autoridades prestigiaram a divulgação da pesquisa na ABC. O presidente da FAPERJ, Augusto C. Raupp, destacou que os resultados em ciência e tecnologia dependem de investimentos contínuos no setor. “O conhecimento em ciência é cumulativo, sendo este o resultado de diversos investimentos feitos no passado pela FAPERJ. A complementaridade entre investimentos públicos e privados também é importante, porque a ciência não pode parar. Por isso, a FAPERJ lançou um edital conjunto com o Idor [Apoio à Realização de Pesquisas Clínicas e Translacionais no Estado do Rio de Janeiro – 2014]”, disse Raupp. Ele destacou a importância do programaPesquisa em Zika, Chikungunya e Dengue no Estado do Rio de Janeiro – 2015, que apoia o estudo das três arboviroses – zika, chikungunya e dengue – abrangendo diversos aspectos, como fisiopatologia das doenças, seus aspectos clínicos, diagnóstico, epidemiologia, interação vetor-vírus, ecologia dos vetores envolvidos, controle e monitoramento de vetores, desenvolvimento de kits-diagnóstico e divulgação científica. “Este edital foi importante por seu caráter emergencial e por ter ajudado a articular em redes os diversos grupos de pesquisa”, completou.

Para o diretor Científico da Fundação, Jerson Lima Silva, a capacidade de formar rapidamente essa rede de pesquisa, diante da epidemia de Zika, é uma prova de que a ciência brasileira atingiu a maturidade. “Ao identificar um problema, os nossos cientistas estão prontos para responder de forma rápida, e isso é um sinal de maturidade. O estado do Rio de Janeiro é responsável por aproximadamente 36% da produção científica nacional na área de arboviroses. A Science está dando o devido apreço à importância dessa descoberta”, disse o diretor da FAPERJ, que também é pesquisador e professor titular do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM/UFRJ).

Células-tronco neurais, com os núcleos em azul, infectadas
com vírus da Zika, em vermelho (Foto: Rodrigo Madeiro)

A vice-presidente regional da Academia Brasileira de Ciências, professora Elisa Reis, destacou que o resultado apresentado é um excelente exemplo da importância da ciência brasileira para o desenvolvimento do País, especialmente quando a ABC completa o seu centenário. “Essa é uma conquista mediante a necessidade social colocada pela epidemia de Zika, que deixa clara a necessidade de avanços urgentes, e contou com o apoio inestimável de fundos públicos, como o da FAPERJ. A ciência precisa ser amparada”, disse Elisa, lembrando que nos dias 4, 5 e 6 de maio a ABC vai realizar a Reunião Magna de Ciência, que terá como tema “O Valor da Ciência” e terá como palestrantes os vencedores do Prêmio Nobel Ada Yonath (Química, 2009) e Jules Hoffmann (Fisiologia ou Medicina, 2011), entre outros.

O reitor da UFRJ, Roberto Leher, destacou a necessidade de esforços constantes para a formação científica brasileira. “Temos muito orgulho do artigo que está sendo publicado na Science por essa equipe. É um trabalho de formação permanente, de várias gerações de cientistas, que está sendo consolidado agora. Muitos de nossos pesquisadores na UFRJ ganharam bolsas para dedicação exclusiva e puderam aproveitar laboratórios com recursos e possibilidade de adquirir insumos. Muito dessa infraestrutura se deve ao apoio da Fundação nesses últimos anos. É um trabalho duradouro de formação da comunidade científica, que exige políticas permanentes de Estado para a área da Ciência e Tecnologia. A defesa da FAPERJ é uma luta da maior importância”, ressaltou Leher.

O presidente do Idor, Jorge Moll Neto, reconheceu a motivação dos pesquisadores envolvidos no estudo. “Sem essa coragem, nada é possível, apesar de todas as dificuldades. Acreditar na ciência brasileira foi o que me fez, junto com a pesquisadora Fernanda Moll, voltar ao País depois de três anos nos Estados Unidos  e criar o Idor, um instituto privado sem fins lucrativos. Depois de seis anos de funcionamento, temos colaborações importantes com a UFRJ, com a FAPERJ e com diversos agentes da sociedade. Que a publicação deste artigo inspire outros cientistas e sinalize aos nossos políticos que é preciso acreditar e investir na ciência e em sua força multiplicadora para a sociedade”, concluiu Moll.

 

Fonte: Débora Motta – Assessoria de Comunicação da FAPERJ

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